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14 de Julho de 2021
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'Professor Pardal da Quebrada' ensina tecnologias sustentáveis à periferia


O curso Seja Sustentável 4.0 começou como uma experiência de metodologia de ensino à distância para aproximar jovens das periferias da zona norte de São Paulo de tecnologias open source e do universo das energias renováveis. Um dos objetivos é preparar os alunos para desenvolver produtos e serviços empresariais e de impacto social que possam ser úteis para aplicar no cotidiano do bairro onde moram ou fora dele.

Com a imposição de aulas e cursos à distância durante a pandemia, muitos educadores encontraram diversos obstáculos para desenvolver métodos intuitivos e inclusivos de ensino remoto. Mas há outras experiências que acumulam uma série de impactos positivos no público. Uma dessas iniciativas é o curso Seja Sustentável 4.0, formação técnica criada pelo inventor e educador Fábio Miranda, também conhecido como 'Professor Pardal da Quebrada'.

No primeiro semestre de 2021, ele desenvolveu uma metodologia de ensino remoto usando open source e energias renováveis, para impactar a imaginação e a criatividade da juventude periférica com uma série de aprendizados voltados ao desenvolvimento de tecnologias criadas à base de materiais sustentáveis.

Nesta edição do curso online, Miranda destaca algumas soluções tecnológicas desenvolvidas pelos alunos que poderiam ser aplicadas em diversos contextos sociais das periferias e favelas, resolvendo problemas que o poder público tem dificuldade para sanar ou não tem interesse em resolver.

Em um auditório de uma empresa parceira do curso, foi proposto para os alunos que eles se organizassem em grupos e fizessem um projeto reunindo tudo o que eles tinham aprendido no decorrer da formação.

"Teve um grupo que criou um sistema que trazia hortas verticais e outro que criou um sistema de iluminação, um protótipo de uma árvore solar. Ela tinha um banco de bateria que você conseguia carregar o celular ali na hora e um sistema de medição de temperatura ambiente e umidade do ar que você conseguia ver pelo aplicativo no celular. Tudo isso feito por eles. A gente mostrou o caminho, mas a ideia foi deles, eles elaboraram tudo", diz Miranda.

Entre esses alunos, o educador destaca um que lhe chamou atenção. "Tem um jovem que se chama Ryan. Ele tem um poder de liderança muito grande com a turma. Na época ele tinha dificuldade para ir ao curso porque morava longe e não tinha dinheiro para a condução. Os alunos usam a camisa laranja do PAC (Projeto Amigos das Crianças). Foi assim que o Ryan conseguia pegar carona. Às vezes ele chegava muito cansado, mas sempre determinado. Acho que é isso, tem que levar essa possibilidade para os jovens e ativar o potencial deles", afirma.

Após a apresentação dos projetos de conclusão do curso, Ryan veio até Miranda para agradecer os ensinamentos. "Depois ele entrou em contato comigo e falou: 'eu saí empregado de lá, fui contratado naquele dia da apresentação para trabalhar em uma empresa. O cara me contratou lá, só por te visto minha apresentação e a forma que eu falava. Ele gostou muito e queria que eu fosse para a empresa dele", conta Miranda.

"Comecei a gostar da tecnologia"
Ana Rodrigues,16, moradora de Pirituba, zona norte de São Paulo, é outra aluna do curso. Ela conta que a cada conteúdo das aulas, novas possibilidades de atuação profissional surgem na sua cabeça. "Eu não tinha nenhuma noção sobre gestão empresarial, juros, tecnologia, muito menos sobre como mexer no Excel e Power Point. Durante esse tempo eu consegui aprender bastante, pois para mim foi tudo novo", diz.

Ela também faz questão de abordar aprendizados que possibilitariam construir soluções tecnológicas focadas em sustentabilidade para o seu bairro. "Mexemos com energia totalmente sustentável para criar um poste que liga através de energia solar. Aí, à noite, ele ia perceber que ficou escuro para iluminar a rua", afirma,

A descoberta dos processos de automação foi outro momento marcante para a jovem. "A gente mexeu na horta vertical. A própria plantação percebe que o solo está seco, aí o sistema começa a liberar água para ir regando a terra. Quando ele percebe que está molhado, para de irrigar", diz.

Após o curso, Ana já revê seus conceitos em relação à tecnologia e diz que se sente mais próxima do processo de produção tecnológica, algo que antes era visto com muita distância. "Comecei a gostar da tecnologia e quero me relacionar mais. Aprendi bastante coisa que eu não sabia", afirma.

Um dos pontos fortes do curso é o processo pedagógico que permite identificar a afinidade dos alunos com o processo de desenvolvimento de soluções tecnológicas baseadas nas necessidades do seu cotidiano.

"Apresento todas as possibilidades existentes referentes às tecnologias sociais e as energias renováveis, é um trabalho bem aberto que me permite identificar quais são os alunos interessados no campo da programação, que gosta de mexer com open source e a cultura maker. Vou identificando isso e mostrando quais são as possibilidades que a gente tem de trabalhar com essas tecnologias", diz Miranda.

Repensando o ensino remoto
Antes do curso Seja Sustentável 4.0 acontecer, Miranda testou o método de ensino remoto para entender como o processo pedagógico seria colocado em prática, a fim de suprir os gargalos de acesso à internet dos moradores das periferias e favelas.

"A gente montou os kits e mandou para a casa de dez pessoas via motoboy. Foi fantástico desenvolver tecnologia mesmo a distância", diz Miranda.

Após as experiências na fase de testes, o Professor Pardal da Quebrada se adaptou ao ensino remoto. "No começo foi um pouco difícil, mas eu já tinha adquirido experiência na dinâmica desse curso totalmente online. Alguns alunos tinham acesso à internet em casa, mas outros não", lembra.

Miranda contou com a parceria do Projeto Amigos das Crianças (PAC), uma organização social da zona norte de São Paulo que incentiva jovens e adolescentes a ter contato com novas tecnologias por meio da alfabetização digital. A sede da PAC disponibilizou a internet para os alunos acompanharem as aulas.

Ele reforça que todos os jovens que precisaram ir à sede do PAC seguiram os protocolos de segurança, usando máscaras, passando álcool em gel e respeitando o distanciamento social.

O curso contou com dois módulos: o primeiro foi composto por conteúdos teóricos e seguiu a proposta de ser totalmente online, e o segundo teve encontros presenciais onde os alunos puderam colocar em prática conhecimentos técnicos para desenvolver experimentos tecnológicos.

Na fase presencial, Miranda conta que o cuidado foi redobrado para impedir aglomeração e prevenir contágios de covid-19. "Pode ver na foto: todos os jovens com máscara, turma reduzida e usando álcool em gel. Além disso, todos os materiais chegavam antes da aula e a gente higienizava tudo", diz.

A primeira turma do Seja Sustentável 4.0 online encerrou o curso em junho de 2021. Já estão previstas novas turmas para participar da imersão no universo das tecnologias sustentáveis e das energias renováveis.




Fonte: TILT - Uol

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