A maioria masculina no setor de Tecnologia da Informação foi um dos grandes motivos que levaram o Sindpd-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo) a organizar a Maratona 8 de Março, que buscou durante todo o mês da mulher promover a inclusão feminina com dezenas de encontros realizados em empresas de sua base.
Porém, inserido neste contexto, há um problema ainda maior: o baixo número de mulheres que ascendem a posições de liderança na carreira de TI, especialmente aquelas que são mães. Para o Techday, evento de encerramento da Maratona 8M realizado em 29 de março, o Sindpd convidou três mulheres – e mães – que conseguiram chegar a cargos de chefia apesar das circunstâncias nada favoráveis.
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O painel “Mulheres na Liderança” foi mediado pela coordenadora da Maratona 8M, Priscila Sena Mansonetto, que foi a primeira mulher a se tornar diretora executiva no Sindpd, e contou com a participação de Ione Coco, Carolina Duca e Lilian Natal.
Priscila ressaltou que, hoje, o sindicato conta com mulheres na liderança da maioria dos setores e já tem quase metade da sua diretoria composta por mulheres, mas segue trabalhando para que este número seja realmente igualitário tanto internamente, quanto no setor que representa.
Pioneirismo
Quando o assunto é liderança no setor de TI no Brasil, Ione Coco é uma das primeiras mulheres do país que “chegaram lá”. Questionamentos em relação à sua capacidade e até mesmo sobre o porquê de ela sequer estar numa área “para homens” surgiram desde o primeiro instante, quando ingressou na faculdade de Física, na década de 1970.
Um dos casos do qual ela não se esquece foi com um professor que dava aula de eletrônica, que se surpreendeu com o fato de ela ter tirado nota máxima em sua prova e perguntou: “a senhora está aqui tirando 10 em eletrônica para depois usar o diploma para lavar roupa?”, contou.

“Recebi todos os assédios que vocês possam imaginar. Fui demitida porque tive filho, me perguntaram se eu já havia me ‘esterilizado’ para assumir minha primeira posição gerencial, e por aí vai. O que você imaginar que existe sobre assédio, eu passei. E o que eu pensava nesses momentos? ‘Aham, eu vou provar que eu sou mais forte, eu vou provar que eu posso e que eu vou em frente’”, disse, sob aplausos da plateia. “Então, a primeira lição aprendida é não desista, porque isso é um viés que está na sociedade”, afirmou.
Ione foi superando cada obstáculo e assumiu o posto de CIO (Chief Information Officer) na CPFL antes mesmo de o cargo possuir este nome. Após 20 anos na estatal paulista de energia, ela foi contratada como diretora da Gartner na América Latina, onde ficou por mais 17 anos. Hoje, ela é presidente emérita da organização não governamental MCIO Brasil (Mulheres CIO do Brasil), a qual fundou com outras companheiras da área para promover a liderança feminina na tecnologia.
Agente da mudança
Décadas depois, Carolina Duca passou pelos mesmos questionamentos que Ione quando entrou na faculdade de Engenharia. Ela contou que um de seus colegas de classe lhe disse que ela largaria o curso em 6 meses pois era “bonitinha” e logo arranjaria um marido ali. Porém, já no segundo ano, o colega abandonou o curso, enquanto ela seguiu em frente e se formou dentro do tempo normal de 5 anos.

“É interessante como as histórias com mulheres, dentro deste ambiente de tecnologia, são parecidas. É importante a gente entender isso, porque às vezes a gente acha que as coisas acontecem só com a gente e pensa ‘por que eu? Por que comigo?’, quando na verdade é um ambiente. A gente precisa entender isso e se enxergar como um agente de mudança”, ponderou.
Hoje gerente sênior de Telecom e Hub de Atendimento de Tecnologia da TV Globo, onde já trabalha há 20 anos, ela ressaltou que sua ascensão se deu em boa parte por deixar claro a seus superiores dentro da empresa de que tinha interesse em assumir postos mais altos quando surgiam oportunidades, e que a insegurança, medo e ansiedade fazem parte do processo.
“A partir do momento em que eu mesma me enxerguei como líder, a chave virou. Esse é um ponto muito importante, porque eu queria ser líder, eu fui lá pedir e falei que queria, mas a hora que eu sentei na cadeira que eu senti o peso daquilo, e é aí que você começa a entender que você que tem que fazer aquela transformação”, afirmou.
Multiplicar as conquistas
Lilian Natal compartilhou que sua inspiração para ascender profissionalmente veio de sua mãe, que sempre lhe dizia para jamais depender de um homem financeiramente. Porém, na sua época, ainda era normal que as meninas fossem criadas ajudando nas tarefas de casa, enquanto os meninos podiam se dedicar exclusivamente aos estudos. “Desde muito cedo tive a noção de que eu precisaria estudar o dobro do meu irmão se quisesse ter as mesmas oportunidades”, afirmou.
Foi a busca por independência econômica desde muito cedo que a levou ao mundo da TI, ao procurar qual carreira estava em alta no mercado na época, e descobrir um curso de técnico de processamento de dados.

“Eu olhava para minha turma no curso e praticamente não tinha mais nenhuma mulher, eu pensava: ‘meu Deus, não tem nada para mim nessa carreira’ e temporariamente desisti da área de tecnologia”, contou, apesar de ter concluído o curso.
Após um período trabalhando na área de comunicação e marketing, ela voltou a buscar sua independência financeira na tecnologia e construiu uma sólida carreira atuando com startups. Porém, quando já ocupava um cargo de gerência, Lilian engravidou e percebeu algo mudar na forma com que ela via seu real papel profissional.
“Quando eu fiquei grávida e soube que era uma menina eu pensei: ‘tem alguma coisa esquisita acontecendo comigo, eu preciso construir um mundo melhor para essa menina que está na minha barriga, não é possível que ela vai enfrentar todas as dificuldades que eu enfrentei, eu preciso fazer alguma coisa’”, falou.
Ela encontrou a resposta em 2011, quando conheceu a Rede Mulher Empreendedora, onde hoje é diretora. A experiência na organização demonstrou a importância de uma mulher ajudar a erguer a outra, pois isso cria um efeito multiplicador de mudança extremamente eficaz. Ela citou, por exemplo, que mulheres empreendedoras reinvestem, em média, 90% dos seus ganhos, o que acaba transformando toda a comunidade em sua volta.
