O Techday do Sindpd-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo) reuniu profissionais que superaram grandes e numerosos desafios até alcançarem posições de destaque na carreira de TI para compartilharem suas experiências com as centenas de trabalhadoras que compareceram ao evento em 29 de março.
Os desafios na carreira para as mulheres em TI foi o tema em foco no terceiro e último painel do dia, que foi mediado pela psicanalista e pedagoga Maria Auxiliadora Camargo, e teve a participação de Carmela Borst, Fernanda Souza e Rayane Jacobson.
Mais mulheres
Com uma extensa trajetória em grandes empresas, Carmela Borst já ocupou cargos de liderança na Oracle, Infor e AON, além de ser especialista em ESG, Tecnologia e Marketing. Com passagens por Harvard e Stanford, também é conselheira administrativa pelo IBGC e atua em diversas iniciativas sociais, incluindo as ONGs Gerando Falcões, Casa do Zezinho, Instituto Ser+, Instituto Capim Santo e Cufa. Seu comprometimento com a educação e igualdade de gênero foi reconhecido com o prêmio ONU Mulheres nos Estados Unidos, na categoria ODS Educação de Qualidade.
LEIA: Líderes na TI, mulheres contam suas trajetórias rumo ao topo
Todo esse currículo, no entanto, não se formou sem desafios, os quais teve que enfrentar sozinha como uma das poucas mulheres nas empresas em que trabalhou. No início de sua carreira, Carmela ingressou em uma empresa responsável por introduzir o código de barras no mercado brasileiro, sendo a única mulher no ambiente corporativo. Posteriormente, entrou na Oracle como Project Manager Junior, onde permaneceu por 18 anos até se tornar vice-presidente, sempre refletindo sobre como poderia utilizar sua posição para transformar a vida de outras pessoas, especialmente mulheres.

“Enquanto eu estava lá, eu ficava pensando no que eu poderia fazer para transformar a vida de outras pessoas, naquela cadeira que eu estava. E claro, com muito foco em mulheres”, ressaltou Carmela durante o painel.
Sua filosofia profissional se baseia em dois pilares essenciais: primeiro, garantir que sempre haja outra mulher crescendo ao seu lado (“eu vou levar uma mulher junto comigo”) e, segundo, agir com propósito, buscando impactar positivamente a vida de outras pessoas.
Atualmente à frente da SoulCode, Carmela lidera iniciativas voltadas à inclusão digital e capacitação de mulheres para o mercado de tecnologia. Entre suas ações, destaca-se um projeto de letramento digital para mulheres no interior do Amazonas, um passo significativo na promoção da educação e da igualdade de oportunidades.
Barreiras sistêmicas
Fernanda Souza é voluntária no ensino de soft skills para jovens em formação tecnológica e atua como gerente de projetos voltados para a diversidade e inclusão, como o coletivo Wakanda Streamers e na comunidade Feministech.
Ela contou sobre as dificuldades que encontrou em sua trajetória profissional desde a formação até o desafio de uma mulher periférica ingressar e se firmar na área de tecnologia. Fernanda explicou que, quem tem origem em uma situação de vulnerabilidade, o foco geralmente é trabalhar desde cedo para garantir seu sustento.

“Eu tenho 39 anos e sou mãe de um universitário. A minha trajetória acadêmica demorou muito para acontecer, eu venho da periferia, da Zona Leste. Pensando em propósito, quando a gente sai da periferia em condição de vulnerabilidade social, a primeira coisa que a gente pensa é em trabalhar, a gente precisa de dinheiro e, só depois, pensa em pagar uma faculdade. E eu fui na contramão e fiz duas faculdades públicas, ali a gente vê que o sistema está sempre te jogando para fora”, disse.
Após trabalhar por muito tempo na área cultural, Fernanda fez uma transição de carreira e foi trabalhar como engenheira de dados. A partir dos desafios encontrados nessa experiência, ela viu que deveria contribuir para que mais pessoas tenham a oportunidade de trabalhar na área de tecnologia.
“Eu pensei em como poderia, não só refletir para o meu filho, dar esse exemplo para ele, mas também como eu poderia transformar outras realidades pensando na educação como um todo, incentivar outras pessoas a estudar, melhorar a qualidade de vida delas”, afirmou.
Desafios e oportunidades
Cofundadora e diretora de marketing da 200DEV, Rayane Jacobson entrou no mundo da TI depois de construir uma empresa bem-sucedida na área de eventos em Goiânia (GO), de onde saiu rumo a São Paulo justamente para poder seguir carreira em tecnologia, área pela qual sempre teve grande entusiasmo.
Porém, em relação aos desafios que enfrentou e enfrenta enquanto mulher e pessoa com deficiência (auditiva) em um setor que ainda tem muito a aprimorar em relação à inclusão, ela optou por unir sua experiência com a de suas colegas na empresa e também de outros lugares, e perguntou a elas quais são seus maiores desafios na carreira de TI.

Dentre os desafios destacados pelas mulheres com quem Rayane conversou estão: ambiente hostil, falta de referências femininas, comentários sexistas, subnotificação de casos de assédio, necessidade de provar sua capacidade constantemente, avaliações de desempenho enviesadas, dificuldade de ser ouvidas, não designação de tarefas complexas, assédio moral, maternidade, dentre outros. Ela contou que sempre lidou com os desafios de forma muito prática, trabalhando naqueles que pode fazer algo para resolver.
“O marido de uma amiga falou para mim: ‘Rayane, parece que a vida para você acontece muito fácil’. E eu não tinha entendido por que ele disse isso. Aí ele falou: ‘é porque você pega um problema e resolve’. E eu vou fazer o que com um problema se não for resolver, gente? E aqueles que não têm solução, o que é que eu posso fazer? Infelizmente a gente sabe que não é assim para todo mundo, às vezes tem muitas barreiras, inclusive as internas, muitas vezes duvidamos de nós mesmas”, disse.
Na visão de Rayane, até mesmo as barreiras ou desvantagens podem se tornar oportunidades para abrir seu espaço. Ela deu o exemplo de um dado que aponta que mulheres líderes ganham em média R$ 40 mil a menos por ano que os homens. O que é uma desigualdade pode ser utilizado como ferramenta para que as mulheres cheguem ao topo e, uma vez lá, galguem condições melhores e igualitárias.
O Techday foi o evento de encerramento da Maratona 8 de Março, organizada pelo Sindpd para promover a inclusão feminina com dezenas de encontros realizados em empresas de sua base durante to o mês da mulher.
Relembre tudo o que aconteceu no âmbito da Maratona 8M clicando aqui.