A inteligência artificial tem cada vez mais ocupado espaço nos consultórios de tricologia reduzindo a subjetividade na avaliação da queda de cabelo e transformando o processo em algo mensurável. Um estudo recente publicado no Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology analisou ferramentas de análise capilar baseadas em IA e indica uma mudança relevante no setor. Em vez de projeções baseadas apenas na observação clínica, a tecnologia passa a converter sinais iniciais de progressão em dados objetivos, com maior precisão e possibilidade de comparação ao longo do tempo.
Na prática, plataformas que utilizam algoritmos já são capazes de mensurar parâmetros considerados fundamentais na avaliação clínica da alopecia, como densidade de fios, espessura média, proporção entre fios terminais e vellus – indicador associado à miniaturização – além de alterações no couro cabeludo. Com o acompanhamento por imagens e métricas padronizadas, essas soluções ajudam a identificar melhora ou piora do quadro antes que as mudanças se tornem perceptíveis no espelho.
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Segundo o tricologista João Gabriel Fernandes, atualmente o diagnóstico da queda capilar na rotina clínica costuma ter início com a anamnese e o exame físico do couro cabeludo e dos fios, observando padrão da queda, tempo de evolução, possíveis gatilhos recentes e histórico familiar.
A tricoscopia, também chamada de dermatoscopia do couro cabeludo, é o método mais utilizado para confirmar padrões como a miniaturização, típica da alopecia androgenética; sinais de eflúvio telógeno, caracterizado por queda temporária; doenças inflamatórias do couro cabeludo, algumas de caráter cicatricial; além da avaliação da densidade e da variação do diâmetro dos fios.
“Sem IA, a tricoscopia depende muito de experiência clínica e da comparação ‘visual’ entre exames e nem sempre é fácil manter padronização de luz, ângulo e o ponto exato do couro cabeludo em retornos diferentes”, explica Fernandes.
O avanço se intensifica quando essas tecnologias se conectam ao ecossistema dos wearables. Relógios inteligentes e sensores biométricos já acompanham indicadores como sono, níveis de estresse, variabilidade da frequência cardíaca, temperatura corporal e outros fatores que podem interferir no ciclo capilar. A proposta é reconhecer padrões fisiológicos que antecedem o afinamento dos fios e, assim, antecipar intervenções antes que a queda se agrave.
“O cabelo é altamente sensível ao que acontece no corpo. Quando conseguimos cruzar dados clínicos e comportamentais, passamos a tratar a queda antes que ela vire um problema visível”, diz o médico João Gabriel, tricologista e fundador da Anagrow.
Essa mudança já começa a se refletir na prática clínica. Ferramentas de tricoscopia apoiadas por IA vêm automatizando a análise do couro cabeludo e convertendo avaliações tradicionais em indicadores quantificáveis, como contagem folicular por centímetro quadrado, espessura dos fios e grau de miniaturização – dados essenciais para compreender tanto o estágio atual quanto a tendência de progressão da condição.
De acordo com o estudo, parte dessas soluções também gera pontuações e relatórios de acompanhamento, permitindo comparações entre o exame inicial e consultas subsequentes. A meta é diminuir variações interpretativas e sustentar decisões clínicas com base em tendências e evolução mensurável, e não apenas na percepção visual.
“Hoje, o paciente chega ao consultório com dados. Isso muda completamente a consulta, porque deixa de ser apenas reativa e passa a ser estratégica”, afirma Dr. João Gabriel.
Outra frente em expansão envolve o uso da IA para personalizar tratamentos e promover acompanhamento contínuo. Plataformas inteligentes já cruzam informações sobre histórico hormonal, hábitos de vida e resposta às terapias para ajustar condutas ao longo do tempo, reduzindo o processo de tentativa e erro.
Ao mesmo tempo, o próprio estudo ressalta limitações: apesar do potencial de padronização, ainda existem lacunas na validação científica e riscos de vieses em bancos de imagens pouco diversos, o que reforça a necessidade de acompanhamento médico especializado.
A tendência, portanto, é que a saúde capilar passe a ser tratada como um processo contínuo, monitorado por dados comparáveis ao longo do tempo. “Estamos caminhando para uma medicina capilar preventiva, em que o objetivo não é apenas recuperar fios, mas evitar que eles se percam” conclui Fernandes.
(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Freepik)
