Violência contra as mulheres – A Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito para investigar a propagação da trend “Caso ela diga não” nas redes sociais, conteúdo que incita diretamente a violência contra o público feminino. Os vídeos, que viralizaram na plataforma TikTok, apresentam jovens ensinando formas de reagir a rejeições amorosas ou pedidos de namoro negados através de agressões físicas, utilizando manequins para simular socos e chutes em mulheres. Segundo a corporação, a remoção dos vídeos já foi solicitada, enquanto o TikTok reiterou que tais publicações violam suas diretrizes e são removidas assim que identificadas.
O surgimento dessas publicações ocorre em um momento de forte comoção nacional devido à denúncia de um estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro. O crime, ocorrido em um apartamento em Copacabana e classificado pela polícia como uma “emboscada planejada”, teria sido articulado pelo ex-namorado da vítima.
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Imagens divulgadas pelo programa Fantástico, da TV Globo, registraram os cinco suspeitos debochando da situação e comemorando o ato no elevador do prédio. Um dos investigados, Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, apresentou-se à polícia vestindo uma camisa com a frase “regret nothing” (“não me arrependo de nada”), expressão popular em grupos digitais que propagam a misoginia e a subjulgação das mulheres.
Misoginia cresce entre jovens
Esse cenário de violência encontra eco em dados estatísticos recentes. Um estudo global conduzido pela Ipsos e pelo King’s College de Londres, abrangendo 23 mil pessoas em 29 países, revelou que os homens da Geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) são mais propensos a sustentar visões conservadoras do que os baby boomers (nascidos entre 1945 e 1965). A pesquisa indica que 31% dos homens jovens acreditam que “a esposa deve sempre obedecer a seu marido”, em contraste com apenas 13% dos homens com 60 anos ou mais que compartilham dessa visão.
A professora Heejung Chung, do Instituto Global para a Liderança das Mulheres do King’s College, afirma que as redes sociais desempenham um “enorme papel” nessa mudança de mentalidade. Segundo a pesquisadora, influenciadores e políticos exploram o sentimento de enfraquecimento das gerações mais jovens para sugerir que os homens precisam reafirmar sua dominância como provedores e protetores.
“As pessoas estão imitando o que veem nas redes sociais sem realmente compreender o que aquilo significa”, explicou Chung à BBC News.
A análise é corroborada por Penny East, executiva-chefe da Sociedade Fawcett, que aponta que meninos são expostos diariamente a “níveis chocantes de misoginia” no ambiente digital. Ela observa que, enquanto homens são incentivados a buscar felicidade através de força e dinheiro, mulheres jovens também estão sendo bombardeadas por conteúdos de “esposas tradicionais” que, sob uma estética agradável, promovem a ideia de subserviência.
“Parece simplesmente que tudo está indo na direção errada”, lamenta, destacando que a percepção pública de que a igualdade de gênero já foi plenamente atingida ignora as altas estatísticas de abuso doméstico e desigualdade salarial.
Diante da gravidade do fenômeno, o Congresso Nacional discute medidas legislativas para endurecer o combate a esses comportamentos. Na Câmara dos Deputados, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) apresentou um projeto de lei para criminalizar a misoginia e a disseminação de conteúdos da cultura “red pill”.
Simultaneamente, no Senado, a Comissão de Direitos Humanos deve analisar uma proposta da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) que visa incluir a misoginia na Lei do Racismo. O objetivo é tipificar o ódio ou aversão às mulheres, baseado na ideia de supremacia masculina, como crime de discriminação, ampliando o alcance da legislação brasileira contra o ódio organizado.
(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Freepik)
