Techday 2026 – Cerca de 300 mulheres participaram, no último sábado (28), de uma imersão em debates sobre carreira, tecnologia e desigualdade no mercado de trabalho durante o Techday 2026, evento que marcou da Maratona Tech Por Elas.
“O mês de março simboliza o mês da nossa força e das nossas conquistas. Por isso reunimos mulheres para debater diversos temas que enfrentamos todos os dias para estarmos aqui”, afirmou Priscila Sena, diretora do Sindpd e coordenadora da maratona.
“Foram mais de 1.200 mulheres alcançados com trocas de experiências, bons diálogos durante todo o mês de março. Isso sim, meninas, é um avanço tecnológico”, completou Sena.
Promovido pelo Sindpd-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo), o evento reuniu especialistas, executivas e lideranças para discutir desde o avanço da inteligência artificial até os desafios estruturais enfrentados pelas mulheres na área de TI.
“As mulheres carregam jornadas múltiplas, profissionais, domésticas e emocionais e muitas vezes precisam provar todos os dias uma competência que já deveria ser pressuposta”, apontou o presidente do Sindpd, Antonio Neto.
Realizado no Hotel Wyndham Garden, em São Paulo, o encontro promoveu painéis e palestras que conectaram temas como liderança feminina, jornadas de trabalho, saúde mental e o papel da tecnologia na sociedade.
“A luta pela emancipação das mulheres não pode ser com um homem na frente e uma mulher atrás. Também não deveria ser o inverso: com uma mulher na frente e os homens atrás. A gente só vai vencer essa luta se caminharmos todos juntos, lado a lado”, defendeu Emerson Morresi, presidente da Fenati (Federação Nacional dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação), entidade que apoiou a realização do Techday.
Liderança feminina e os desafios na era da IA
O primeiro painel, “Mulheres em Espaços de Liderança na Tecnologia na Era da IA”, reuniu executivas que atuam diretamente na transformação digital das empresas e foi mediado pelas diretoras do Sindpd Isabella Kawase e Sue Ellen Naka.
Durante o debate, Rita Hayashi, diretora executiva de Recursos Humanos da Marketdata&Match/WPP Commerce, trouxe uma análise sobre o momento de transformação vivido pelo mercado, destacando como diversidade e tecnologia estão diretamente conectadas. Segundo ela, o avanço da inteligência artificial exige uma mudança de mentalidade e uma atuação mais consciente de quem desenvolve essas soluções.
“As mulheres estão transformando o mundo. A gente vive um momento muito oportuno para um cenário de virada. Eu falo sobre o autismo para quebrar padrões e estereótipos, mas isso mesmo vale para o gênero também”, afirmou.
Ao aprofundar o tema, Hayashi chamou atenção para os riscos da IA quando construída sem diversidade, destacando que a tecnologia pode reproduzir desigualdades já existentes na sociedade. Para ela, ampliar a presença feminina — e de outros grupos diversos — é essencial para garantir inovação mais justa.
Primeiro painel do dia debateu ”Mulheres em Espaços de Liderança na Tecnologia na Era da IA”. Foto: Divulgação/Sindpd
“Eu acho que eventos como esse são fundamentais. Eu fico muito contente por saber da representatividade do Sindpd e espero que mais empresas se engajem e observem esse movimento que está sendo conduzido de uma maneira tão esplêndida pelo sindicato”.
Na sequência, Alessandra Veleda, executiva de transformação digital e inteligência artificial, ampliou a discussão ao destacar o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas e o impacto direto disso nas carreiras.
Ela explicou que, além do domínio técnico, o mercado exige cada vez mais habilidades comportamentais, especialmente para quem busca posições de liderança.
“A área de tecnologia não para. O tempo todo surge algo novo, e é essencial se atualizar para entender como tudo funciona”, afirmou.
Veleda também abordou o receio que ainda existe em relação à inteligência artificial dentro das empresas, apontando que o medo de substituição muitas vezes impede o avanço profissional. Segundo ela, o caminho está na adaptação contínua e no desenvolvimento de novas competências.
“Eu achei uma maravilha a promoção desse evento, ainda mais por ele ser aberto para pessoas de outros estados. O Sindpd está de parabéns e pode ampliar esse modelo ao longo do ano todo”, elogiou.
Encerrando o painel, Rita de Cássia Piciura, CIO Latam da All4Labels Brasil, trouxe um olhar mais pessoal sobre trajetória profissional, compartilhando os desafios enfrentados ao longo da carreira em um ambiente predominantemente masculino.
Ela destacou que, apesar das barreiras e dos questionamentos que ouviu ao longo do caminho, a persistência foi fundamental para sua consolidação na área.
“A tecnologia me fez chegar aonde estou e me proporcionou tudo o que eu tenho na minha vida… Eu nunca desisti”, afirmou.
Ao falar sobre o avanço da inteligência artificial, Piciura ressaltou que, apesar dos ganhos tecnológicos, o fator humano segue sendo essencial — especialmente na tomada de decisões e na construção de ambientes mais empáticos.
Além disso, reforçou a importância da conexão entre mulheres como estratégia para fortalecimento coletivo dentro do setor. “Promover esse evento é se colocar numa cadeira de exemplo e puxar outras instituições para que também promovam esse tipo de iniciativa”, finalizou.
Jornadas múltiplas e desigualdade estrutural
O segundo painel levou o debate para além do ambiente corporativo, trazendo à tona as chamadas jornadas múltiplas — quando o trabalho profissional se soma às responsabilidades domésticas e de cuidado.
Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, destacou que essas dinâmicas ainda são naturalizadas na sociedade, o que contribui para a sobrecarga feminina e impacta diretamente o desenvolvimento profissional das mulheres. “Nós somos ensinadas a dar conta de tudo, mas essas habilidades não são valorizadas nem economicamente nem socialmente”, afirmou.
Ela também apontou que a discussão sobre jornada de trabalho precisa ser tratada como uma pauta estrutural, com impactos diretos na produtividade e na qualidade de vida. “O Sindpd está de parabéns por realizar uma atividade como essa, mostrando sensibilidade para temas sociais e para as necessidades específicas das mulheres”, pontuou.
Segundo painel do dia debateu ”Jornadas múltiplas, tempo de vida e o fim da escala 6×1”. Foto: Divulgação/Sindpd
Na sequência, Mariane Guerra, vice-presidente de Recursos Humanos Latam na ADP, trouxe uma perspectiva voltada à gestão e ao impacto da desigualdade nas empresas. Segundo ela, a sobrecarga feminina não é apenas uma questão social, mas também econômica.
Ela explicou que ambientes mais equilibrados tendem a ser mais produtivos e inovadores, reforçando a importância de políticas de equidade dentro das organizações. “Ver o trabalho que o Sindpd está fazendo, com capacitação e valorização da mulher, é admirável e faz uma diferença enorme na vida das trabalhadoras”.
Encerrando o painel, Marina Bragante, vereadora em São Paulo, trouxe a dimensão das políticas públicas, destacando como questões como mobilidade, jornada e cuidado impactam diretamente a vida das mulheres.
“Dias como hoje ajudam a conectar esse debate com a vida real e mostram que precisamos construir soluções junto com empresas e o sindicato”, ponderou, ressaltando que a construção de soluções passa pela integração entre poder público, empresas e sociedade civil.
Carreira, protagonismo e transformação
Na parte da tarde, Aline Correia, diretora executiva da inventCloud, conduziu uma palestra voltada ao desenvolvimento profissional, abordando temas como adaptação, tomada de decisão e crescimento em cenários de incerteza.
“Talvez não nasça quando tudo se acalmar, talvez ela nasça do exato momento em que você decide não se abandonar no meio do caos ou na marcha pra frente”, disse.
A executiva destacou que, em um mercado em constante transformação, a capacidade de se reinventar se torna um diferencial competitivo, especialmente para mulheres que enfrentam barreiras estruturais.
Primeira palestra do dia debateu ”Mentalidade Antifrágil: Crescer no caos e nas mudanças”. Foto: Divulgação/Sindpd
“É superimportante o Sindpd fazer esse tipo de ação, principalmente em tecnologia, que ainda é um ambiente majoritariamente masculino”, concluiu.
Saúde mental, assédio e cultura organizacional
O terceiro painel trouxe um dos temas mais sensíveis do evento: o impacto do ambiente de trabalho na saúde mental das mulheres.
Bárbara Baracho, procuradora do Ministério Público do Trabalho (MPT), destacou o aumento dos casos de assédio e a necessidade de enfrentamento coletivo, reforçando que muitas dessas práticas ainda são naturalizadas dentro das organizações.
Na sua avaliação, as desigualdades estruturais continuam limitando o acesso das mulheres a oportunidades e posições de liderança. “O Sindpd tem um papel essencial ao criar espaços de escuta, troca e acolhimento, além de atuar diretamente na defesa dos direitos das trabalhadoras”, apontou Baracho, que também é coordenadora da Coordigualdade do MPT.
Psicanalista e pedagoga, Maria Auxiliadora Camargo aprofundou o debate ao abordar como a cultura organizacional impacta diretamente a saúde emocional. Ela destacou que ambientes tóxicos, marcados por pressão constante e competitividade excessiva, contribuem para o adoecimento mental.
Terceiro painel do dia debateu ”Saúde mental, assédio e violência no ambiente de trabalho na tecnologia”. Foto: Divulgação/Sindpd
“A cultura corporativa pode ser tóxica ou não. Quando é tóxica, ela é construída a partir da normalização de algumas questões: muito trabalho, competitividade extrema, comunicação agressiva e lideranças que valorizam resultados acima de pessoas”, elaborou Camargo.
Inteligência artificial e o futuro da liderança
Encerrando a programação, Fernanda Giraldeli, Sales Manager LATAM na Zazmic, trouxe uma visão estratégica sobre o papel da inteligência artificial no futuro do trabalho. Ela destacou que, apesar do avanço tecnológico, as competências humanas seguem sendo essenciais — especialmente em posições de liderança.
Giraldeli também reforçou que o uso da IA deve ser orientado por propósito e responsabilidade, garantindo que a tecnologia contribua para a equidade. “Se não existirem espaços como esse para discutir e entender os nossos objetivos, a evolução não vai acontecer. Então eu acho incrível essa iniciativa de poder fazer isso e conectar tantas mulheres”.
Última palestra do dia debateu ”Liderança feminina na era da IA: Além dos algoritmos e agentes”. Foto: Divulgação/Sindpd
Com debates que conectaram tecnologia, trabalho e questões sociais, o Techday 2026 encerrou sua programação reforçando a importância de ampliar a presença feminina na TI — não apenas como participação, mas como protagonismo na construção do futuro do setor.