IA redefine recrutamento – Durante anos, a lógica para conquistar uma vaga de emprego parecia direta: formação adequada, experiência comprovada e disponibilidade para assumir a função. Esses critérios seguem sendo centrais nas decisões de contratação, sem contestação no mercado. O que mudou, no entanto, é que eles deixaram de ser suficientes para garantir avanço em um processo seletivo.
Ultimamente, uma etapa invisível passou a interferir diretamente na trajetória dos candidatos. Ferramentas de inteligência artificial começaram a organizar, priorizar e filtrar currículos antes mesmo de qualquer avaliação humana. Nesse contexto, saber executar o trabalho já é o suficiente; é preciso, antes de tudo, conseguir visibilidade dentro dos sistemas de seleção.
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A engenheira de produção Samanta Santos vivencia essa realidade. Com formação técnica, experiência diversificada e abertura para diferentes formatos de contratação, ela relata dificuldades persistentes ao buscar oportunidades.
“Existem vagas para as quais me inscrevi em outubro e nunca tive retorno. Na semana passada, três processos dos quais eu participava foram encerrados ao mesmo tempo, sem explicação (…). Até hoje, nenhum processo realizado por plataformas digitais avançou para mim”, desabafa.
O caso não é isolado. A experiência de Samanta reflete uma tendência em um mercado que, ao mesmo tempo em que amplia oportunidades, intensifica a concorrência. No Brasil, seis em cada 10 profissionais afirmam que buscar emprego ficou mais difícil no último ano, segundo levantamento do LinkedIn. Entre os principais fatores apontados estão o aumento da concorrência (55%) e a percepção de processos mais exigentes (50%).
A tecnologia tem papel central nessa transformação. Em 2025, mais da metade das organizações ouvidas pela Society for Human Resource Management (SHRM) declarou utilizar inteligência artificial em processos de recrutamento. Paralelamente, os próprios candidatos passaram a adotar essas ferramentas: cerca de um terço dos usuários do ChatGPT recorreu ao chatbot para apoiar a busca por emprego.
Na prática, formou-se uma dinâmica circular: sistemas automatizados filtram candidatos que, por sua vez, utilizam tecnologia para tentar se destacar nesses mesmos sistemas.
“A inteligência artificial deu rosto a um problema que já existia, o de disputar vagas em um mercado cada vez mais competitivo”, analisa Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina.
Mesmo com o desemprego nos menores níveis da série histórica do IBGE, o país atravessa um período de intensa mobilidade profissional. Trabalhadores empregados se sentem mais confiantes para buscar novas oportunidades, motivados por melhores salários, maior flexibilidade ou crescimento na carreira.
O resultado é um aumento significativo no número de candidatos por vaga, muitos deles com trajetórias consolidadas e sem urgência imediata para mudar de emprego.
“As empresas hoje escolhem entre profissionais muito qualificados. Isso torna as decisões mais criteriosas e, naturalmente, mais lentas”, afirma Beck.
De acordo com Jhennyfer Coutinho, chefe da experiência para pessoas candidatas da Gupy, há processos seletivos que chegam a reunir milhares de inscrições em poucos dias. Ela menciona casos com até 17 mil candidatos em apenas dois dias, especialmente em empresas com marcas consolidadas, sem prejuízo para a triagem inicial graças ao uso de tecnologia. Em contrapartida, a ausência de etapas estruturadas pode transformar a análise de currículos em um gargalo inevitável.
Entre profissionais de atração de talentos que já testaram ou integraram IA generativa, 70% afirmam que a tecnologia melhora a eficiência da contratação. Outros 47% avaliam que os anúncios de vagas se tornam mais assertivos, enquanto 33% percebem ganho na qualidade das escolhas.
Quando o volume de candidatos é organizado por sistemas automatizados, o gargalo tende a se deslocar para etapas que ainda dependem exclusivamente de decisões humanas. Entrevistas, reuniões com gestores e validações internas continuam sujeitas a agendas, alinhamentos e critérios subjetivos.
Além disso, o custo de uma contratação equivocada leva empresas a adotarem posturas mais cautelosas, o que contribui para a desaceleração do processo. Segundo Thomas Costa, head de growth da Pandapé e da Redarbor, é nesse ponto que o ritmo diminui.
Para quem aguarda uma resposta, a sensação é de paralisação. Para as empresas, porém, o processo segue em andamento, ainda que de forma silenciosa. Esse cenário é reforçado pela presença crescente de candidatos já empregados.
“Esse perfil [profissional que já está empregado] não tem a mesma urgência ou velocidade para responder ou marcar uma entrevista do que alguém que está desempregado”, diz.
Outro elemento que intensifica a percepção de exclusão é a forma como os sistemas operam. Plataformas de recrutamento afirmam que a inteligência artificial não elimina candidatos, mas organiza os perfis de acordo com a compatibilidade com os critérios da vaga. Na prática, entretanto, em seleções com milhares de inscritos, aqueles que aparecem nas últimas posições dificilmente chegam a ser avaliados.
É essa lógica que alimenta a frustração de muitos profissionais. “O robô afunila demais. Se não tem a palavra certa, o currículo cai. Ele não vê o potencial”, afirma Samanta.
(Com informações de G1)
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