Com casas, rotinas e relações cada vez mais mediadas por dispositivos, assistentes virtuais e ferramentas de inteligência artificial (IA), um movimento contrário começa a ganhar força. Em 2026, cresce o interesse por aquilo que tem sido chamado de “estilo de vida analógico”, uma tendência que vai além da simples desintoxicação digital.
A proposta não é abandonar completamente a tecnologia, mas desacelerar e resgatar formas mais tangíveis de realizar tarefas cotidianas e de se entreter, especialmente em um contexto em que plataformas de IA generativa passam a pensar, sugerir e até criar no lugar das pessoas.
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Embora seja difícil mensurar a dimensão exata do fenômeno, alguns indicadores apontam para um avanço consistente de hobbies offline. A empresa de artes e artesanato Michael’s, que opera mais de 1.300 lojas na América do Norte, informou que as buscas por “hobbies analógicos” em seu site cresceram 136% nos últimos seis meses. Em 2025, as vendas de kits de artesanato com instruções passo a passo aumentaram 86%, e a expectativa da companhia é de um crescimento adicional entre 30% e 40% neste ano.
Entre os chamados “hobbies de avó”, o tricô se destaca. As buscas por kits da atividade aumentaram 1.200% em 2025. Segundo a diretora de merchandising da Michael’s, Stacey Shively, a empresa pretende ampliar o espaço dedicado a materiais de tricô nas lojas. Para ela, o artesanato tem sido adotado como uma forma de cuidado com a saúde mental e de afastamento das notícias negativas, especialmente após a pandemia de Covid-19.
“Eu realmente acho que estamos passando por uma grande mudança cultural”, afirmou à CNN.
Influenciada por essa tendência, a autora do relato decidiu experimentar o estilo de vida analógico por conta própria, vivendo durante 48 horas como se estivesse nos anos 1990. A proposta implicou abandonar três iPhones, um MacBook, dois monitores de mesa, um Kindle, uma Alexa, e o impulso constante da Geração Z de alternar entre todos esses dispositivos.
“Detesto IA”
Antes da experiência, ela conversou com pessoas que já adotam práticas analógicas no dia a dia. Para falar com Shaughnessy Barker, por exemplo, é preciso ligar para o telefone fixo. Aos 25 anos, moradora de Penticton, na Colúmbia Britânica, Barker teve seu primeiro contato com a internet no início da década de 2010, por meio do “stan Twitter” da banda britânica One Direction. Com o tempo, no entanto, passou a se incomodar com o funcionamento das plataformas.
“Tudo é feito para dar lucro (na internet) e nada mais é feito apenas para diversão”, disse.
Barker se define como “uma pessoa que odeia inteligência artificial” e diz que a transição para um estilo de vida mais analógico não foi difícil. Criada ouvindo rádio e discos de vinil, ela mantém uma extensa coleção de fitas cassete, DVDs, VHS e LPs. Também organiza noites de artesanato e degustações de vinho sem tecnologia, escreve anotações à mão e estabelece limites para o tempo que passa no computador.
Ainda assim, ela reconhece as contradições do processo. A divulgação de sua loja vintage e do “clube de cartas” que organiza depende da internet. “Sou um paradoxo ambulante, porque penso: ‘Quero largar o celular e vou fazer vídeos para o TikTok sobre isso’”, contou.
O que é, afinal, “voltar ao analógico”?
Para muitos adeptos, o movimento surge como resposta ao cansaço provocado pela rolagem infinita de notícias negativas e pela presença constante da IA no cotidiano. Há também frustração com o uso de ferramentas como o ChatGPT para pensar e criar conteúdos.
“A falta de originalidade da IA é bastante cansativa, tanto pelo ato de visualizar o conteúdo quanto pelo fato de ser tão repetitivo e pouco original”, analisou Avriel Epps, pesquisadora de IA e professora assistente da Universidade da Califórnia Riverside.
Adotar um estilo de vida analógico, no entanto, não significa rejeitar totalmente a tecnologia. Em muitos casos, trata-se de escolhas pontuais: trocar o Spotify e seus recursos automatizados por um iPod, reduzir a quantidade de fotos digitais e optar por uma imagem analógica que possa ser tocada, ou ainda substituir o celular por um despertador físico.
“Adotar o estilo analógico não significa necessariamente me desconectar das informações da internet, mas sim desconectar a internet das informações sobre mim”, explicou Epps, que pratica o “domingo sem telas”.
Entre o gesto genuíno e a performance
No primeiro dia offline, a experiência começou de forma tranquila. Acordar com a luz do sol, escrever em um diário, ler um exemplar antigo de O Morro dos Ventos Uivantes e se arrumar mais rapidamente criaram a sensação de um cotidiano mais leve. Sem acesso a um iPod ou videocassete, o tempo foi preenchido com leitura e trabalhos manuais.
O maior incômodo, porém, foi a sensação de estar performando o próprio desligamento. A experiência era narrada para uma publicação digital e construída a partir de contatos feitos nas redes sociais.
Mesmo assim, durante uma caminhada sem tecnologia até o trabalho, a autora percebeu outras pessoas igualmente afastadas das telas. Em vez de desviar dos turistas observando os prédios, acompanhou o olhar deles. Naquele dia claro, o Empire State Building parecia especialmente imponente.
Durante um encontro semanal de tricô em uma biblioteca do Brooklyn, cerca de 20 mulheres de diferentes idades trocavam dicas de pontos e cores sem o uso de celulares. Todas comentaram como a atividade funciona como forma de relaxamento. “Tricotar te dá algo para fazer com as mãos, então você não fica no celular”, disse Tanya Nguyen, frequentadora assídua do grupo.
Ao fim do dia, houve tempo para terminar O Morro dos Ventos Uivantes, escrever um cartão-postal para uma prima de 8 anos e dar os primeiros passos (ainda tímidos) no tricô. A sensação foi de ter realizado algo além do trabalho e da tela azul constante. Como para muitos da mesma geração, bastou uma trend do TikTok para indicar o caminho.
(Com informações de CNN Brasil)
(Foto: Reprodução/Freepik)