Robô submarino – Cientistas afirmam ter dado um passo importante na observação dos cachalotes ao desenvolver um robô submarino autônomo capaz de acompanhar, em tempo real, as vocalizações desses animais nas profundezas oceânicas.
Esses mamíferos marinhos se comunicam por meio de cliques sonoros — sinais que podem percorrer grandes distâncias na água. Além de utilizarem esses sons para navegação e caça, eles produzem sequências organizadas, conhecidas como “codas”, consideradas fundamentais para a interação entre indivíduos.
LEIA: Brasil teve mais de 750 bilhões de tentativas de ataques digitais em 2025
Embora a vocalização dos cachalotes tenha sido registrada pela primeira vez em 1957, compreender essa comunicação sempre foi um desafio. Isso porque esses animais mergulham a profundidades superiores a 1.600 metros e passam cerca de 50 minutos submersos a cada hora, o que dificulta a observação contínua.
“O planador submarino escuta as baleias por meio de quatro hidrofones e então se direciona até elas usando um recurso chamado ‘backseat driver’ (piloto automático secundário)”, disse David Gruber, fundador e diretor-executivo do Projeto Ceti (Iniciativa de Tradução de Cetáceos, em inglês), professor de biologia e ciências ambientais no Baruch College da Universidade da Cidade de Nova York e coautor do estudo publicado no último dia 28 na revista Scientific Reports.
“Quando o planador detecta as vocalizações características dos cachalotes, o software de bordo identifica de onde vem o som e se comunica automaticamente com o sistema de navegação do planador para mudar de direção e seguir a baleia”, acrescentou Gruber.
O dispositivo, chamado de planador, é um robô compacto que se movimenta alterando sua flutuabilidade — afundando ao se tornar mais denso e subindo quando se torna mais leve.
“Você pode pensar nele como um explorador silencioso de longa distância, mais parecido com um albatroz planando do que com um veículo motorizado, viajando constantemente pelo oceano enquanto escuta e coleta informações pelo caminho”, disse Gruber.
Até então, as técnicas de monitoramento dependiam de etiquetas fixadas temporariamente nas baleias ou de sensores estacionários, que perdiam contato quando os animais se afastavam. O Projeto Ceti também recorre a hidrofones rebocados por embarcações.
A principal inovação do novo sistema, segundo Gruber, está na capacidade de tomar decisões enquanto ainda está submerso, sem depender de análise posterior dos dados.
Enquanto métodos anteriores permitiam apenas reconstruir trajetórias após o deslocamento das baleias, a nova tecnologia ajusta continuamente o percurso do planador, possibilitando o acompanhamento prolongado de um mesmo indivíduo ou grupo — potencialmente por meses.
Essa mudança representa, nas palavras do pesquisador, a transição “de encontros breves para relacionamentos contínuos”, permitindo análises mais detalhadas sobre comportamento, organização social e interação com o ambiente.
Os dados coletados também podem contribuir para esclarecer como ocorre a comunicação entre esses animais.
“Ao acompanhar pares de mãe e filhote ao longo do tempo, podemos começar a ver como os filhotes adquirem padrões vocais de suas mães”, disse Gruber.
Outro potencial da tecnologia é avaliar o impacto das atividades humanas nos oceanos. O sistema pode identificar alterações na comunicação dos cachalotes diante de ruídos provocados por embarcações, obras marítimas ou atividades pesqueiras.
Essas informações podem orientar políticas públicas mais precisas, como a redução da velocidade de navios, mudanças em rotas marítimas ou restrições à pesca em áreas sensíveis.
Segundo Gruber, o avanço tecnológico também amplia reflexões mais amplas sobre inteligência e comunicação no planeta.
“Desenvolver o sistema nos aproxima de compreender outra forma de inteligência na Terra, o que tem implicações não apenas para a conservação, mas para como pensamos sobre comunicação e vida além de nossa própria espécie”, acrescentou.
Apesar dos avanços, ainda existem limitações. O planador consegue identificar a direção das baleias, mas não sua posição exata, o que dificulta distinguir indivíduos específicos. Além disso, o robô precisa emergir periodicamente para transmitir dados, o que pode interromper a continuidade do monitoramento.
Mesmo assim, um momento específico chamou a atenção dos pesquisadores: quando o equipamento operou de forma independente. “Estamos começando a construir sistemas que podem operar de forma independente e responder ao mundo natural conforme ele se desenrola”, disse Gruber.
(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Magnific)