Pesquisa genética – A genética da ansiedade acaba de ganhar novos capítulos. Um estudo internacional liderado por pesquisadores do King’s College London e do Instituto de Pesquisa Médica QIMR Berghofer, na Austrália, identificou dezenas de variantes genéticas associadas ao transtorno e oferece uma das análises mais abrangentes já realizadas sobre o tema.
Publicado na revista Nature Human Behaviour, o trabalho analisou dados genéticos de quase 700 mil pessoas e encontrou o maior número de associações genéticas relacionadas à ansiedade já registrado. Apesar do avanço científico, os resultados reforçam que os genes representam apenas uma parte da explicação para o desenvolvimento do transtorno.
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A ansiedade é um dos problemas de saúde mental mais comuns no mundo e tem apresentado crescimento significativo nas últimas décadas. Ainda assim, sua base genética recebeu menos atenção científica do que outros transtornos psiquiátricos, como esquizofrenia e transtorno bipolar.
Diferentemente de pesquisas anteriores, que costumavam classificar os indivíduos apenas entre aqueles com ou sem transtorno de ansiedade, o novo estudo adotou uma perspectiva mais ampla. Os cientistas analisaram a ansiedade como um espectro contínuo, abrangendo desde respostas consideradas normais ao estresse cotidiano até quadros graves e incapacitantes.
Segundo os autores, essa abordagem permitiu uma compreensão mais abrangente dos mecanismos biológicos envolvidos e revelou associações que poderiam passar despercebidas em modelos mais tradicionais.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram a metodologia GWAS (Genome-Wide Association Study), conhecida como estudo de associação genômica ampla. A técnica compara o DNA de centenas de milhares de pessoas em busca de variantes genéticas mais frequentes entre indivíduos com sintomas mais intensos de ansiedade.
A análise incluiu 693.869 participantes de ascendência europeia e identificou 74 regiões do genoma associadas ao transtorno. Dessas, 39 nunca haviam sido relacionadas à ansiedade em pesquisas anteriores.
O estudo também reforçou a relevância de genes específicos, como PCLO e SORCS3, envolvidos na comunicação entre neurônios. Muitos dos genes identificados apresentam elevada atividade no tecido cerebral, indicando possível participação nos processos que regulam emoções, comportamento e resposta ao estresse.
Apesar da descoberta, os pesquisadores alertam que a influência genética é limitada. As variantes identificadas explicam apenas cerca de 6% das diferenças observadas na intensidade dos sintomas de ansiedade entre os participantes.
De acordo com os autores, isso significa que a maior parte do risco continua relacionada a fatores não genéticos, como ambiente familiar, experiências traumáticas, condições socioeconômicas, relacionamentos e vivências acumuladas ao longo da vida.
Os cientistas destacam que possuir uma predisposição genética elevada não determina que uma pessoa desenvolverá necessariamente um transtorno de ansiedade. Da mesma forma, indivíduos com baixo risco genético podem apresentar sintomas significativos quando expostos a situações de estresse intenso, violência ou traumas psicológicos.
O estudo também chama atenção para a crescente importância dos fatores ambientais e sociais. Os pesquisadores observam que o aumento acelerado dos casos de ansiedade nas últimas gerações não pode ser atribuído apenas à genética, já que mudanças genéticas acontecem de forma lenta ao longo de milhares de anos.
Nesse contexto, fatores como insegurança econômica, hiperconectividade digital, isolamento social, transformações no mercado de trabalho e eventos traumáticos coletivos aparecem como possíveis contribuintes para o avanço global dos transtornos de ansiedade.
Por essa razão, especialistas defendem que as políticas públicas voltadas à saúde mental não se limitem ao tratamento clínico, mas também contemplem ações capazes de melhorar as condições de vida da população.
Outro achado importante da pesquisa foi a identificação de fortes correlações genéticas entre ansiedade e diversas condições físicas, entre elas depressão, síndrome do intestino irritável, dor crônica, doença arterial coronariana, endometriose e enxaqueca.
Segundo os pesquisadores, essas associações reforçam evidências de que saúde mental e saúde física estão profundamente interligadas. No entanto, os autores ressaltam que o estudo não permite determinar relações de causa e efeito entre essas condições.
A relação pode ocorrer em diferentes direções: fatores biológicos compartilhados podem aumentar simultaneamente o risco de múltiplos problemas de saúde, enquanto o convívio com doenças crônicas e dores persistentes também pode favorecer o surgimento da ansiedade.
Para os cientistas, compreender melhor essas conexões poderá contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais personalizados e estratégias preventivas mais eficazes, permitindo identificar indivíduos mais vulneráveis e oferecer intervenções antes que os sintomas se tornem incapacitantes.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific)
