Dark patterns – A autoridade de fiscalização de mídia da Irlanda abriu uma investigação contra a Meta para apurar se a empresa utiliza mecanismos conhecidos como “dark patterns” para influenciar o comportamento de usuários em suas plataformas. A análise busca entender se as pessoas ainda conseguem controlar os conteúdos exibidos em redes sociais ou se acabam sendo conduzidas por algoritmos desenhados para aumentar a coleta de dados e prolongar o tempo de uso.
O foco da investigação está em possíveis violações do Artigo 27 da Lei de Serviços Digitais da União Europeia (DSA), norma que garante aos usuários o direito de compreender e alterar o funcionamento dos algoritmos responsáveis pelos conteúdos apresentados. Caso sejam confirmadas irregularidades, a companhia pode ser multada em até 6% do faturamento anual global, valor que poderia alcançar 20 bilhões de euros, cerca de R$ 116 bilhões.
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Os chamados “dark patterns” são práticas de design digital criadas para induzir decisões que muitas vezes não correspondem ao interesse do usuário. Esses mecanismos exploram fatores como pressa, distração, conveniência ou receio de perder oportunidades, incentivando ações como compartilhamento de dados pessoais, contratação de serviços ou realização de compras.
No caso investigado, a suspeita é de que a Meta dificulte o acesso à opção de alternar entre um feed personalizado e outro organizado apenas em ordem cronológica. Segundo a apuração, a configuração poderia estar escondida em diferentes submenus ou até ser redefinida automaticamente após o fechamento do aplicativo, levando usuários a permanecerem no modelo personalizado para evitar novos ajustes.
Entre os principais exemplos de padrões obscuros identificados em plataformas digitais está o “confirmshaming”, prática que destaca visualmente o botão de aceitação do rastreamento de dados, enquanto a opção de recusa aparece menos visível e acompanhada de mensagens manipulativas, como “Não, prefiro continuar vendo anúncios irrelevantes”.
Outro recurso comum envolve esconder botões de recusa em vários submenus ou utilizar caixas previamente marcadas, exigindo que o usuário desative manualmente determinadas permissões. Há também estratégias de pressão psicológica, como avisos de estoque limitado ou notificações de que várias pessoas estariam visualizando o mesmo produto naquele momento, criando sensação de urgência e estimulando decisões impulsivas.
A prática conhecida como “nagging” também está entre os métodos analisados. Nela, plataformas repetem constantemente ofertas ou solicitações até que o usuário aceite apenas para interromper notificações insistentes. Situações semelhantes aparecem em reservas online, quando serviços adicionais são oferecidos em diferentes etapas da compra.
Outro modelo criticado é o chamado “pague ou aceite”, em que usuários precisam escolher entre pagar pelo uso sem anúncios ou consentir com o uso de dados para publicidade personalizada. Organizações de defesa do consumidor argumentam que esse formato não representa uma escolha equilibrada.
Também chama atenção o chamado “hotel de baratas”, sistema em que assinar um serviço é rápido e simples, mas cancelá-lo exige múltiplas etapas, navegação em submenus ou até contato telefônico. Em muitos casos, períodos gratuitos são convertidos automaticamente em assinaturas pagas, enquanto custos adicionais aparecem de forma pouco destacada.
Com a entrada em vigor do Digital Services Act, a União Europeia passou a restringir práticas consideradas manipulativas em plataformas online. Ainda assim, especialistas apontam que muitos desses mecanismos continuam operando em uma área cinzenta da legislação, já que não existe uma definição única e completamente objetiva sobre o que caracteriza manipulação no design digital.
Diante desse cenário, entidades de defesa do consumidor reforçam que a principal forma de proteção continua sendo a atenção dos próprios usuários. A recomendação é evitar decisões apressadas, revisar caixas de seleção, desconfiar de mensagens que criem pressão artificial e não aceitar configurações automaticamente sem verificar suas consequências.
(Com informações de Olhar Digital)
(Foto: Reprodução/Magnific)