Coreia do Sul – Em pontos turísticos, aeroportos, supermercados e até em campanhas eleitorais, a inteligência artificial já está presente no cotidiano da Coreia do Sul. Na N Seoul Tower, um dos cartões-postais da capital, visitantes podem transformar fotografias em caricaturas geradas por IA. Já no Aeroporto Internacional de Incheon, assistentes virtuais auxiliam passageiros na localização de portões de embarque e serviços.
Mas a estratégia do país vai além de iniciativas voltadas à experiência do usuário. Em visitas realizadas pela reportagem a instituições públicas e privadas na última semana, foi possível observar como sistemas baseados em inteligência artificial vêm sendo incorporados a atividades ligadas à saúde, à gestão urbana e à segurança.
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A aposta sul-coreana parte da avaliação de que os ganhos econômicos da tecnologia dependerão não apenas do desenvolvimento dos modelos mais avançados, mas também da capacidade de integrá-los a estruturas já existentes. Embora os resultados ainda sejam incertos, experiências em diferentes setores já estão em andamento.
Um dos casos mais avançados está no SNUH (Seoul National University Hospital), considerado um dos principais hospitais do país. Durante apresentação realizada pela empresa Infmedix, ligada à Universidade Nacional de Seul, foi demonstrada uma plataforma de inteligência artificial generativa capaz de acompanhar todo o percurso de um paciente dentro do sistema de saúde.
Em uma das simulações exibidas, um homem de 62 anos com suspeita de AVC procura atendimento em um hospital secundário. Enquanto médico e paciente conversam, a plataforma registra automaticamente a consulta, organiza informações como sinais vitais, histórico médico e medicamentos utilizados, além de sugerir possíveis encaminhamentos clínicos.
Caso seja necessária a transferência para uma unidade de maior complexidade, o sistema reúne de forma automática exames, documentos e demais informações clínicas para envio à nova equipe responsável pelo atendimento.
De acordo com Hyung-Chul Lee, diretor de instituto do SNUH voltado a pesquisas sobre IA na saúde, estudos preliminares apontam redução no tempo de atendimento sem comprometer a precisão clínica. A expectativa é que a solução esteja implantada em todos os hospitais ligados à universidade ainda neste ano, enquanto outras instituições já iniciaram processos de adoção.
Lee ressalta que a ferramenta não substitui profissionais da saúde. Segundo ele, as decisões médicas continuam sob responsabilidade dos especialistas, cabendo à inteligência artificial tarefas como organização de informações, elaboração de relatórios e automatização de processos administrativos.
A proteção dos dados dos pacientes, contudo, permanece como uma das principais preocupações. Conforme o hospital, as informações ficam armazenadas em redes privadas e apenas dados anonimizados são utilizados durante o desenvolvimento dos sistemas. Um comitê interno é responsável por determinar quais dados podem ser acessados pela plataforma.
A aplicação da inteligência artificial também alcança o planejamento urbano. A menos de 30 quilômetros de Seul, a cidade de Anyang opera um centro de monitoramento equipado com grandes painéis que acompanham, em tempo real, o trânsito, linhas de ônibus autônomos, ocorrências de segurança pública, incêndios florestais e outras situações de emergência.
O sistema utiliza câmeras dotadas de recursos de IA capazes de identificar tipos de veículos, rastrear deslocamentos, detectar infrações e ampliar imagens automaticamente em caso de acidentes. Dependendo da ocorrência, os dados são compartilhados imediatamente com órgãos como polícia e corpo de bombeiros.
Segundo Yun Jungho, integrante da equipe de serviços inteligentes da prefeitura de Anyang, a análise das informações coletadas também orienta decisões urbanísticas. Após identificar um cruzamento com elevado número de pedestres atravessando fora da faixa, a administração municipal decidiu implantar uma travessia diagonal em formato de “X”, modelo já adotado em cidades como São Paulo.
Além disso, o sistema é utilizado para localizar pessoas desaparecidas, monitorar idosos com demência e acompanhar usuárias de um aplicativo desenvolvido para ampliar a segurança de mulheres durante deslocamentos noturnos.
No setor de emergência, a inteligência artificial também auxilia operações de combate a incêndios. Os bombeiros utilizam um veículo não tripulado controlado remotamente, capaz de atuar em ocorrências de grande porte.
O equipamento possui alcance de até 5 quilômetros e conta com câmeras e sistemas de visão computacional que aumentam a precisão operacional em ambientes com fumaça intensa. Segundo os responsáveis pelo projeto, o veículo já foi empregado tanto em incêndios industriais quanto em operações de busca realizadas após desabamentos.
A estratégia sul-coreana inclui ainda a formação de profissionais especializados em aplicações de IA. Na Sungkyunkwan University (SKKU), uma das instituições de ensino mais tradicionais do país, está em andamento um programa nacional voltado à capacitação de talentos para diferentes áreas da economia.
A iniciativa reúne universidades de diversas regiões e busca formar especialistas capazes de aplicar inteligência artificial em setores como educação, energia, agricultura, urbanismo e manufatura.
Para Ji-Beom Yoo, presidente da universidade, a Coreia do Sul dificilmente disputará diretamente com Estados Unidos e China a liderança no desenvolvimento dos maiores modelos de linguagem. Por isso, o foco está em utilizar a tecnologia em segmentos nos quais o país já possui vantagens competitivas consolidadas, como manufatura, semicondutores e eletrônicos.
“Sabemos que as atividades em IA nos Estados Unidos e na China são enormes comparadas às nossas. Por isso precisamos encontrar a maneira mais eficiente de melhorar nossa tecnologia”, disse.
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(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Magnific)
