IA avança no Brasil – O avanço da inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante e passou a redesenhar, concretamente, setores inteiros da economia, da mineração ao comércio eletrônico, dos mercados de capitais à indústria do petróleo. Mas, junto com as oportunidades, crescem os alertas: controlar a tecnologia pode ser tão decisivo quanto desenvolvê-la.
Os números dão a dimensão do movimento. A Moody’s projeta US$ 2 trilhões em investimentos em data centers ao redor do mundo nos próximos quatro anos. No Brasil, dezenas de fundos imobiliários já reorientaram suas carteiras para esse tipo de infraestrutura. A exploração de terras raras ainda não tem regras definidas no país, mas as promessas já alcançam bilhões em investimentos na atividade e no beneficiamento dos minerais.
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No mundo digital, os resultados são igualmente expressivos. A LWSA, empresa que cobre toda a cadeia de negócios de e-commerce, afirma que as máquinas já respondem por quase 100% das atividades de coding e prototipação. Uma de suas ferramentas, o WOZ , reduziu em um terço os contatos diários em operações do grupo, aumentou em 50% a retenção por agentes e permitiu a redução de 25% no número de vagas de atendimento em pelo menos três operações da holding. No plano global, o movimento se traduz em demissões em massa: a Amazon dispensou 16 mil funcionários em janeiro.
A aplicação que virou virada
Para especialistas, foi o desenvolvimento de código que finalmente mostrou o valor real da IA nos negócios. “Há um ano falávamos de um possível estouro na bolha de inteligência artificial. Não havia nenhum caso de utilização da tecnologia em empresas que justificasse o gasto. De lá para cá, a tecnologia encontrou sua aplicação matadora, o desenvolvimento de código, que mostrou ser extremamente produtiva no setor de engenharia de software”, afirma Marcelo Finger, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador principal do USP-Fapesp-IBM Centro de Inteligência Artificial (C4AI).
O mesmo Finger, no entanto, é enfático ao apontar os riscos estruturais do avanço acelerado. “Do ponto de vista estratégico, a inteligência artificial cria forte dependência de um pequeno número de fornecedores que estão totalmente concentrados nos Estados Unidos. E isso traz como consequência problemas de segurança e soberania. E também de proteção, uma vez que os dados saem do Brasil, vão para os Estados Unidos e por lá ficarão armazenados para sempre”, resume.
Geopatriação e governança
O tema da soberania já chegou às próprias plataformas de IA. Quando consultadas sobre as três principais tendências do setor, ferramentas como ChatGPT e Copilot reconhecem os riscos geopolíticos e citam o conceito de geopatriação como parte central do debate sobre infraestrutura de IA.
As mesmas plataformas admitem, porém, que não são capazes de apoiar os usuários diretamente nas questões de segurança. Abre-se, assim, espaço para um nicho promissor: o de consultorias e soluções capazes de tutelar, de alguma forma, máquinas e usuários.
A Gartner, uma das principais consultorias globais de tecnologia da informação, apontou dez tendências tecnológicas que devem transformar os próximos cinco anos e metade delas está diretamente ligada a governança, controles e práticas de segurança. “A adoção de sistemas de IA, principalmente agentes, abre algumas brechas de segurança e proteção de dados que estão virando prioridade para a implantação da tecnologia. Por outro lado, estes riscos abrem oportunidades para o desenvolvimento de novas soluções”, confirma Alexandre Evsukoff, professor da Coppe/UFRJ e pesquisador de modelos de IA para a indústria desde os anos 1990.
Evsukoff ilustra o avanço setorial com o trabalho desenvolvido em seu laboratório, o LAMCE/UFRJ, nas áreas de geofísica, rocha digital, sensoriamento remoto e modelagem atmosférica. “A implantação da solução no mercado é feita por empresas como a Petrec, que é uma spin-off do LAMCE/UFRJ”, conta.
Empresas especializadas em integrar IA aos negócios já colhem os frutos dessa demanda. A Qlik, presente no mercado desde 2007 com ferramentas de interação com bases de dados estruturados, ampliou seu portfólio há dois anos para incluir bases de dados não estruturados. Também implementou em sua plataforma um protocolo que permite aos clientes utilizar grandes modelos de linguagem (LLMs) como ChatGPT, Gemini e Copilot. “Existe uma demanda muito grande de integração de plataformas. Acredito que esse é o caminho”, resume César Ripari, diretor de Pré-Vendas para a América Latina da empresa.
O Brasil na corrida global
O ritmo acelerado da inovação torna ainda mais urgente agir sem esperar um cenário mais estável. “Com o ritmo acelerado da inovação, planos tecnológicos frequentemente se tornam obsoletos antes mesmo da implementação. O caminho não é tentar prever a tecnologia, mas construir arcabouços e princípios”, afirma Ricardo Santana, sócio-líder de Data & Analytics, Automação e Inteligência Artificial da KPMG no Brasil.
Um dado do relatório “Global AI in Finance Report”, da KPMG, revela uma especificidade brasileira que chama atenção: baseado nas respostas de 150 empresas no país, o estudo mostra que os brasileiros têm apetite maior do que seus pares globais para aplicar IA na área tributária. “O Brasil sempre se destacou pelo sistema financeiro. Temos os melhores sistemas de pagamentos do mundo e os canais digitais mais abrangentes e completos. O recorte brasileiro indica que o país está competitivo frente a seus pares globais, com destaque na área tributária: 60% dos respondentes brasileiros já consideram utilizar Gen AI na gestão tributária, área em que a aplicação ainda é limitada globalmente”, conclui Frank Meylan, sócio-líder de Tecnologia, Transformação Digital e Inovação da KPMG no Brasil e na América do Sul.
(Com informações de O Globo)
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