IA economiza horas – Durante anos, uma das principais promessas da inteligência artificial foi a possibilidade de reduzir o tempo gasto com tarefas repetitivas. A expectativa era que máquinas permitissem produzir mais em menos tempo e, consequentemente, devolvessem algumas horas aos trabalhadores.
Os primeiros sinais observados dentro das próprias empresas que desenvolvem essas tecnologias, porém, apontam para outro cenário. A questão que começa a surgir é o que acontece com o tempo economizado quando uma tarefa deixa de exigir tantas horas para ser concluída.
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A hora economizada pode desaparecer
Parte da promessa de ganho de produtividade já aparece na rotina de profissionais que utilizam ferramentas de IA. Um estudo da OpenAI com cerca de 9 mil trabalhadores de quase 100 empresas identificou uma economia média de aproximadamente 40 a 60 minutos por dia. Entre os usuários mais frequentes, o ganho passou de dez horas semanais.
O tempo, no entanto, nem sempre se transforma em descanso.
Pesquisadores da UC Berkeley Haas acompanharam, durante oito meses, funcionários de uma empresa de tecnologia com amplo acesso à IA generativa. Além de observar as atividades realizadas, os pesquisadores fizeram mais de 40 entrevistas para entender como o comportamento dos trabalhadores havia mudado.
Em vez de simplesmente terminar o expediente mais cedo, os funcionários passaram a ocupar os períodos liberados pela tecnologia com outras atividades. Tarefas que antes seriam delegadas começaram a ser realizadas pela própria pessoa, enquanto diferentes processos passaram a ser conduzidos simultaneamente.
Até os intervalos entre reuniões ou antes do almoço passaram a ser oportunidades para iniciar novas tarefas. Bastava abrir uma ferramenta, inserir um comando e começar outra atividade.
A IA, dessa forma, não apenas reduziu o esforço necessário para iniciar determinadas tarefas. Ela também tornou mais fácil continuar trabalhando.
Mais produtividade, mais responsabilidades
A transformação também está relacionada ao avanço das próprias ferramentas. Os sistemas passaram a executar atividades mais complexas por períodos prolongados, utilizando ferramentas externas e mantendo determinados processos em andamento sem supervisão humana constante.
A Anthropic, por exemplo, mostrou que o Claude Opus 4 poderia trabalhar de maneira autônoma durante horas em uma tarefa de refatoração de software.
A capacidade de supervisionar diferentes tarefas ao mesmo tempo, entretanto, também pode fazer com que empresas aumentem a quantidade de trabalho atribuída a um único profissional.
Uma análise da OpenAI baseada em mais de 800 mil mensagens profissionais de usuários americanos do ChatGPT identificou que 43,5% das consultas relacionadas especificamente a uma profissão envolviam atividades normalmente associadas a outra ocupação.
Com isso, as fronteiras entre diferentes funções ficam menos rígidas. Um profissional de vendas pode analisar dados, enquanto um designer pode executar tarefas básicas de engenharia. Um pequeno empresário, por sua vez, pode produzir textos, revisar documentos e realizar cálculos que anteriormente seriam delegados.
A capacidade individual aumenta, mas também pode crescer a expectativa sobre aquilo que cada trabalhador deve ser capaz de fazer.
É nesse ponto que o ganho de produtividade passa a ter um aspecto menos confortável: o tempo economizado pode não pertencer ao trabalhador.
O que acontece com as horas poupadas?
A discussão sobre redução da jornada de trabalho continua presente. A própria OpenAI já defendeu experimentos com semanas de quatro dias e 32 horas semanais, sem redução salarial, desde que a produtividade e a qualidade dos serviços sejam mantidas.
A lógica é que, se a IA permitir que uma mesma quantidade de trabalho seja realizada em menos tempo, parte desse ganho poderia ser convertida em tempo livre.
Mas a tecnologia não determina o destino dessas horas.
Se uma atividade que anteriormente levava cinco horas passa a exigir apenas uma, as quatro horas restantes podem ser usadas para descanso ou preenchidas com novas tarefas. Ambos os caminhos são possíveis.
A escolha, portanto, depende de decisões tomadas por empresas, trabalhadores e governos.
Contradição dentro da própria indústria de IA
Os relatos de jornadas extensas na indústria de inteligência artificial tornam essa discussão ainda mais relevante. Segundo depoimentos reunidos pela BBC, funcionários atuais e antigos de empresas como OpenAI, Anthropic, Meta e Google relataram períodos de trabalho intenso.
Alguns dos relatos mencionam jornadas de 70 horas semanais ou até superiores a 90 horas em determinados períodos.
O cenário cria uma contradição: empresas responsáveis pelo desenvolvimento de ferramentas capazes de reduzir o tempo necessário para realizar tarefas também fazem parte de uma cultura profissional na qual as horas economizadas podem ser rapidamente ocupadas por mais trabalho.
Nesse contexto, o principal impacto da IA sobre a jornada profissional pode não depender apenas da capacidade da tecnologia de aumentar a produtividade.
A questão central passa a ser quem terá poder para decidir o destino desse tempo.
Se os ganhos de eficiência continuarem aumentando, a inteligência artificial poderá contribuir para jornadas mais curtas. Mas isso não acontecerá automaticamente. Para que a produtividade se transforme em mais tempo livre, será necessário decidir que parte desse ganho deve retornar aos trabalhadores.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific/senivpetro)
