O Techday seguiu sua programação à tarde com duas palestras especiais e mais um painel, desta vez sobre assédio e saúde mental no trabalho. As palestras abordaram como prosperar na carreira apesar das adversidades e obstáculos que afetam especialmente as mulheres, e como as habilidades humanas ganham ainda mais importância com o avanço da inteligência artificial.
O evento, promovido pelo Sindpd-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo) neste sábado (28), aconteceu no Hotel Wyndham Garden, em Santana, na Zona Norte da capital paulista e marcou o encerramento da Maratona Tech Por Elas. (Saiba mais sobre a Maratona Tech Por Elas aqui!)
Quem fez a fala de abertura da tarde foi o secretário-geral do Sindpd e presidente da Fenati (Federação Nacional dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação), Emerson Morresi, que começou destacando como a luta por igualdade de gênero precisa ser construída coletivamente, com participação ativa de homens e mulheres.
“Trazendo para o nosso dia de hoje, a luta pela emancipação e igualdade das mulheres não é uma luta só de vocês; precisa da nossa participação ativa”, afirmou.
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Morresi também criticou o clima de polarização em torno das pautas sociais e destacou que divisões acabam sendo exploradas economicamente. Citando reflexões da pesquisadora Fernanda Garibaldi sobre desigualdade no mercado de trabalho, ele afirmou que a discriminação pode ser utilizada como mecanismo de redução de custos.

“Toda forma de discriminação – seja contra a mulher, contra o negro ou contra pessoas LGBT – é uma ferramenta usada pelo sistema para explorar todos nós. Se o patrão consegue pagar menos para uma mulher ou para um negro na mesma função, ele rebaixa o valor do trabalho de todos”, disse.
De acordo com ele, a atuação sindical busca transformar discursos em ações concretas, especialmente nas negociações coletivas. “Muita empresa adora colocar o tal do ESG no site ou em apresentações bonitas para investidores. O papel aceita tudo. O nosso papel como sindicato é tirar o ESG do papel e colocar na vida real das pessoas da TI.”
Mentalidade antifrágil e protagonismo na carreira
Na sequência, Aline Correia, diretora executiva da inventCloud, apresentou a palestra “Mentalidade Antifrágil: Crescer no caos e nas mudanças”, propondo uma reflexão sobre desenvolvimento profissional e tomada de decisões em cenários de incerteza.

Logo no início, ela convidou as participantes a refletirem sobre situações comuns na trajetória de muitas mulheres, como a necessidade de provar repetidamente a própria competência ou assumir responsabilidades antes de se sentirem totalmente prontas.
“Às vezes ficamos esperando o cenário perfeito para tomar uma decisão e, nesse processo, travamos e deixamos a oportunidade passar. Muitas mulheres chegaram até aqui não porque tiveram um caminho fácil, mas porque aprenderam a avançar mesmo sem garantias”, afirmou.
A executiva apresentou os seis pilares da mentalidade antifrágil: aceitar, aprender, posicionar-se, cuidar, relacionar-se e reinventar-se. Segundo ela, o conceito está ligado à capacidade de transformar dificuldades em crescimento.“Antifragilidade não é a ausência de dor, é a capacidade de gerar crescimento a partir do atrito”, explicou.
Aline também destacou a importância de autoconfiança e protagonismo em um setor marcado por rápidas transformações tecnológicas. “A tecnologia muda muito rápido e exige capacitação constante. Precisamos ter foco, autoconfiança e protagonismo, especialmente nós, mulheres na tecnologia.”
Assédio, desigualdade e saúde mental no trabalho

Em seguida, o Painel 3 — “Saúde Mental, Assédio e Violência no Ambiente de Trabalho na Tecnologia” reuniu especialistas para discutir os desafios enfrentados pelas mulheres no ambiente corporativo. O debate foi mediado por Priscila Sena, diretora do Sindpd-SP e coordenadora da Maratona Tech Por Elas.
A primeira painelista, Bárbara da Silva Baracho, procuradora do Trabalho e coordenadora da Coordigualdade do Ministério Público do Trabalho (MPT), destacou o aumento das denúncias de assédio moral e sexual nas empresas.
“Anualmente vem aumentando o número de casos de assédio moral e sexual dentro das empresas. Ao mesmo tempo, as pessoas estão mais conscientes para reconhecer quando estão passando por esse tipo de situação”, afirmou.
Ela explicou que o assédio moral envolve condutas que afetam a dignidade da pessoa trabalhadora e destacou que muitas dessas situações estão relacionadas a discriminações estruturais.
“As mulheres são atingidas por diversas barreiras no mercado de trabalho. Não apenas pela segregação vertical, que limita o acesso a cargos de liderança, mas também pela segregação horizontal, quando determinadas áreas são vistas como ‘mais femininas’ ou ‘mais masculinas’.”
A segunda painelista, Maria Auxiliadora Camargo, psicanalista e pedagoga, trouxe para o debate a importância de olhar para a saúde mental no ambiente de trabalho como uma questão central da vida das pessoas. Segundo ela, o trabalho não é apenas uma atividade produtiva, mas um espaço onde se constroem relações, identidades e projetos de vida.
“O trabalho não é neutro, ele distribui ou concentra poder, oportunidades, reconhecimento e dignidade. Trata-se de um espaço central de vida, onde construímos a nossa identidade e a forma como vamos desenvolver os nossos projetos”, afirmou.
Durante sua fala, Maria Auxiliadora destacou que muitos problemas relacionados ao sofrimento no trabalho têm origem em culturas corporativas tóxicas, que se consolidam quando determinadas práticas passam a ser naturalizadas dentro das organizações.
Entre elas, citou a normalização de jornadas excessivas, tratadas como prova de comprometimento; a competitividade extrema, que transforma colegas em adversários; a comunicação agressiva, frequentemente justificada como “sinceridade” ou “feedback direto”; e modelos de liderança que priorizam resultados acima das pessoas e silenciam denúncias para evitar conflitos.
“A cultura corporativa costuma penalizar mulheres assertivas. O homem é visto como forte, poderoso, com um comportamento agressivo que muitas vezes é naturalizado. Já quando uma mulher se posiciona da mesma forma, isso costuma ser interpretado de maneira diferente”, explicou.
Para Maria Auxiliadora, enfrentar esse cenário exige reflexão constante e disposição para questionar práticas que foram normalizadas ao longo do tempo. “Refletir é um ato de resistência. Nós não podemos perder a nossa capacidade de indignação diante do que está errado. A luta continua”, concluiu.
Liderança feminina e inteligência artificial
Encerrando a programação de conteúdo, Fernanda Giraldeli, Sales Manager LATAM da Zazmic, apresentou a palestra “Liderança Feminina na Era da IA: Além dos algoritmos e agentes”, abordando o papel da inteligência artificial na transformação do mercado de tecnologia.

Segundo a especialista, a IA deve ser entendida como uma ferramenta de apoio à tomada de decisões. “Na prática, a inteligência artificial é um machine learning bem-feito”, explicou.
Ela ressaltou que, em um cenário de transformação digital acelerada, competências humanas se tornam ainda mais relevantes. “Cargos de liderança pedem cada vez mais inteligência emocional, pensamento ético, alfabetização em IA e gestão de mudanças.”
Para a especialista, a diversidade também é um fator estratégico para inovação. “Quando temos uma equipe diversa, temos cerca de 25% a mais de eficácia.”
Ao final, ela reforçou que, apesar dos avanços tecnológicos, o propósito das soluções continuará sendo definido pelas pessoas. “A IA pode escrever o código, mas a liderança feminina define o propósito do software e o bem-estar da sociedade que o utiliza.”
Final especial
O dia foi encerrado com o sorteio de um iPhone 17, sendo Maria Gislene dos Santos, da BBTS, a grande vencedora. Ela contou que também participou da primeira edição do Techday, no ano passado, e fez questão de comparecer novamente.

“Tudo que nos é passado e ensinado, abre bastante a nossa visão no campo da tecnologia e da mulher no campo tecnológico, porque a gente não tem noção de tudo aquilo que a gente enfrenta no dia a dia, o setor é composto de homens e a gente sofre bastante preconceito. Aqui é o lugar onde a gente se inspira a não desistir e continuar que tem espaço para todo mundo”, disse.
Um show com a cantora e compositora Nick Maia fechou um dia repleto de conteúdo, troca de experiências e conexões totalmente dedicado às mulheres de TI, organizado pelo Sindpd mais uma vez como parte de seu compromisso de promover um setor de tecnologia mais inclusivo, igualitário e com respeito às mulheres.
