Internet brasileira – Quando a Seleção Brasileira entra em campo, o impacto vai muito além dos gramados. A cada partida da Copa do Mundo de 2026, milhões de pessoas assistem à transmissão, comentam lances nas redes sociais, compartilham vídeos, fazem pagamentos digitais e utilizam aplicativos de entrega simultaneamente. Nos bastidores, toda essa movimentação gera um enorme desafio para a infraestrutura que sustenta a internet.
O fenômeno pôde ser observado durante a estreia do Brasil na competição. No empate contra o Marrocos, disputado no último sábado (13), o data center RJO1, da Elea, localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, registrou um salto expressivo no volume de tráfego. A movimentação passou de uma média de 200 gigabits por segundo (Gbps) para 865 Gbps, um crescimento superior a quatro vezes o padrão habitual.
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O volume registrado é semelhante ao observado na final do Intercontinental de Clubes do ano passado, entre Flamengo e PSG, e corresponde à transferência simultânea de mais de 100 mil vídeos em alta definição.
Para especialistas, os números ajudam a ilustrar a dimensão do comportamento digital que acompanha os jogos da Seleção.
“Esses 865 Gbps ilustram como eventos de grande audiência impactam o ecossistema digital. O número reflete milhões de usuários consumindo o mesmo conteúdo simultaneamente”, explica Fernanda Belchior, diretora de Vendas & Marketing da Elea Data Centers.
Segundo ela, “o torcedor não enxerga esses 865 Gbps, mas percebe instantaneamente quando uma transmissão trava ou um serviço falha”.
A era da audiência conectada
O hábito de acompanhar uma partida mudou radicalmente nas últimas décadas. Hoje, o torcedor não se limita a assistir ao jogo. Enquanto acompanha a transmissão pela televisão, streaming ou celular, também participa de grupos de mensagens, consulta estatísticas, pesquisa informações sobre atletas, acompanha memes e interage em diferentes plataformas digitais.
De acordo com a Elea, durante os jogos da Seleção, “toda a audiência faz praticamente as mesmas coisas ao mesmo tempo”, criando um cenário de enorme demanda para a infraestrutura tecnológica.
O desafio ganha proporções ainda maiores diante do tamanho da população conectada do país. Dados da DataReportal apontam que o Brasil possui aproximadamente 185 milhões de usuários de internet e cerca de 150 milhões de usuários de redes sociais.
Entre as plataformas mais utilizadas estão o YouTube, com cerca de 150 milhões de usuários, o Instagram, com aproximadamente 147 milhões, e o TikTok, que alcança 131 milhões de adultos. Esses números ajudam a explicar os picos simultâneos de buscas, compartilhamentos, vídeos e comentários registrados durante as partidas.
Copa também impulsiona pedidos de comida e bebidas
O reflexo dos jogos aparece em diversos setores da economia digital. Dados do iFood indicam que as vendas de bebidas cresceram mais de 63% durante a partida entre Brasil e Marrocos, em comparação com o sábado anterior.
O maior volume de pedidos foi registrado às 18h, uma hora antes do início do confronto. Entre os produtos comercializados pelas lojas de bebidas da plataforma, seis em cada dez itens vendidos eram cervejas.
Além disso, a categoria de mercado apresentou crescimento superior a 8%, enquanto a pizza grande de dois sabores liderou o ranking de pedidos realizados nos restaurantes naquele dia.
“Observamos um comportamento claro de planejamento, com aumento da demanda por bebidas e itens de conveniência antes do início da partida, além do fortalecimento de ocasiões de consumo compartilhado”, afirma Rafael Correa, diretor de Comunicação Institucional do iFood.
Redes sociais acompanham cada lance
O movimento também foi intenso nas plataformas digitais. Segundo o TikTok, a hashtag #SelecaoBrasileira registrou aumento de 169% nas publicações durante o dia da estreia do Brasil, enquanto #CopadoMundo cresceu 112%.
As buscas por “seleção brasileira” avançaram 133%, e as pesquisas relacionadas a “Vini Jr” tiveram crescimento próximo de 220%.
O interesse do público começou antes mesmo de a bola rolar. Nos dias que antecederam a estreia, as buscas por “look Copa do Mundo” aumentaram 249%. Já as pesquisas por “unhas Copa do Mundo 2026” cresceram 163%, enquanto “make Copa do Mundo Brasil 2026” registrou alta de 485%.
Levantamento da Ipsos encomendado pelo TikTok mostra ainda que 85% dos fãs utilizam a plataforma durante eventos esportivos ao vivo. Outros 94% recorrem ao aplicativo para assistir aos melhores momentos que perderam, enquanto 42% afirmam passar a acompanhar a transmissão pela televisão ou por serviços de streaming após consumirem conteúdo esportivo na rede social.
Uma experiência muito diferente da Copa de 2002
Segundo especialistas, a transformação tecnológica alterou completamente a forma como os torcedores acompanham o Mundial.
“A principal mudança é que a experiência deixou de estar concentrada apenas na televisão”, afirmou Fernanda Belchior.
Se em 2002 a interação se limitava, na maioria das vezes, a comentários por telefone ou conversas posteriores ao jogo, em 2026 o torcedor participa ativamente da experiência digital em tempo real, criando conteúdo, pesquisando informações e interagindo em diversas plataformas simultaneamente.
Para a executiva, “a Copa atual exige não apenas transmissão, mas uma rede robusta de conectividade, processamento e armazenamento de dados para suportar um volume colossal de interações”.
Como a internet suporta tantos acessos ao mesmo tempo
Por trás das transmissões existe uma complexa estrutura formada por data centers, servidores, provedores de internet, cabos submarinos e redes de distribuição de conteúdo.
Os data centers armazenam e distribuem informações que abastecem serviços de streaming, bancos, marketplaces, aplicativos e redes sociais.
Uma das tecnologias fundamentais nesse processo é a CDN (Content Delivery Network), sistema que distribui cópias de conteúdos em servidores espalhados por diferentes regiões. Dessa forma, o usuário acessa informações a partir de pontos mais próximos, reduzindo atrasos e melhorando a qualidade da experiência.
Também entram em funcionamento mecanismos de redundância e balanceamento de carga. Caso um equipamento apresente falha, outro assume automaticamente a operação. Se determinada rota estiver congestionada, o tráfego é redistribuído.
“É como uma cidade com diversas avenidas, túneis e rotas alternativas. Quando uma via fica cheia, os veículos são direcionados para outros caminhos. A internet funciona de forma semelhante”.
“A internet moderna foi projetada para distribuir cargas de forma eficiente”, acrescentou Fernanda Belchior.
Segundo ela, plataformas de streaming, bancos e redes sociais funcionam por meio de uma malha de redes interconectadas que compartilham tráfego e distribuem acessos simultâneos.
“Como eventos como a Copa são previsíveis, preparamos toda a cadeia antecipadamente para suportar picos muito superiores ao tráfego diário”, explicou Belchior.
Rio busca protagonismo na economia digital
O aumento do tráfego durante a Copa também evidencia o papel estratégico do Rio de Janeiro na infraestrutura digital brasileira.
Localizado na Barra da Tijuca, o RJO1 figura entre os principais hubs de conectividade do país e reúne dezenas de operadoras de telecomunicações. A unidade integra ainda a estrutura utilizada por empresas de mídia, plataformas digitais e serviços financeiros.
Nesse cenário surge o projeto Rio AI City, iniciativa voltada à ampliação da capacidade de processamento e armazenamento de dados na cidade, com o objetivo de atrair investimentos em computação em nuvem e inteligência artificial.
A lógica segue o mesmo princípio observado durante os jogos da Copa: a infraestrutura necessária para sustentar transmissões simultâneas, serviços digitais e streaming em larga escala também será essencial para o avanço das aplicações de inteligência artificial.
Para o torcedor, o gol chega à tela em poucos segundos. Nos bastidores, porém, uma extensa rede de sistemas trabalha continuamente para garantir que transmissões, pagamentos, entregas, redes sociais e plataformas digitais funcionem sem interrupções. Durante a Copa do Mundo, essa infraestrutura invisível opera em ritmo de final.
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(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Magnific)
