Impressão 3D – A impressão 3D, conhecida por transformar arquivos digitais em objetos de plástico, metal e outros materiais, passou a ser utilizada para uma finalidade muito mais delicada: a construção de estruturas formadas por células humanas vivas. Um dos primeiros resultados que ajudaram a demonstrar esse potencial ocorreu na Universidade de Newcastle, no Reino Unido, em um experimento voltado à bioimpressão da córnea.
Em vez de plástico aquecido, a impressora recebeu uma mistura composta por células humanas, colágeno e alginato. A proposta dos pesquisadores era verificar se uma bioimpressora conseguiria depositar o material em camadas sucessivas para produzir uma estrutura com a geometria de uma córnea.
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A máquina formou círculos concêntricos, camada após camada. Em menos de dez minutos, havia sido produzida uma estrutura curva com dimensões compatíveis com uma córnea humana.
O aspecto mais importante, porém, não estava no formato obtido. As células haviam sobrevivido ao processo.
Publicado em 2018 na revista Experimental Eye Research, o experimento foi apresentado como uma prova de conceito para a bioimpressão do estroma corneano. Naquele momento, os pesquisadores não haviam criado uma córnea completa pronta para ser transplantada.
O avanço estava em demonstrar que células humanas vivas poderiam passar pelo processo de impressão e permanecer viáveis enquanto uma estrutura tridimensional era construída.
O desafio de criar uma “tinta” para células
Para que o experimento funcionasse, os pesquisadores precisaram encontrar uma composição que atendesse simultaneamente às exigências da impressora e das células.
A equipe formada por Abigail Isaacson, Stephen Swioklo e Che Connon combinou células do estroma de uma córnea humana saudável com colágeno e alginato. A mistura precisava apresentar um equilíbrio preciso.
Se fosse líquida demais, o material perderia a forma depois de sair do bico da impressora. Se fosse rígida demais, a pressão necessária para extrudá-lo poderia danificar as células.
O resultado foi uma biotinta capaz de ser impressa e, ao mesmo tempo, manter a estrutura produzida.
Os testes indicaram que mais de 90% das células continuavam viáveis no dia seguinte à impressão. Depois de uma semana, a taxa de viabilidade permanecia em torno de 83%.
O objetivo não era apenas fabricar uma peça com aparência semelhante à de uma córnea, mas utilizar células vivas como parte do próprio tecido construído.
Os pesquisadores também demonstraram que o processo poderia trabalhar com dimensões baseadas em uma córnea humana específica. A possibilidade abriu uma perspectiva de personalização: no futuro, medidas obtidas a partir do escaneamento de um olho poderiam orientar a fabricação de uma estrutura individualizada.
Uma possível alternativa à falta de córneas para transplante
A aplicação médica da tecnologia está relacionada à própria função da córnea. Localizada na parte frontal do olho, essa camada transparente tem papel fundamental na passagem e na focalização da luz. Quando sofre danos graves, o transplante pode ser necessário.
Existe, entretanto, uma limitação importante: a quantidade de córneas disponíveis para transplante não é suficiente para atender toda a demanda.
Por esse motivo, pesquisadores vêm estudando há anos alternativas baseadas em engenharia de tecidos e biomateriais. A bioimpressão aparece nesse contexto como uma possibilidade para produzir estruturas utilizando células vivas.
Ainda assim, o protótipo desenvolvido em Newcastle estava muito distante de representar uma córnea artificial pronta para devolver a visão a um paciente.
O que os pesquisadores haviam produzido era um equivalente do estroma corneano. Uma córnea funcional possui diferentes componentes e precisa apresentar propriedades ópticas, mecânicas e biológicas específicas.
Além disso, qualquer tecido destinado a um paciente precisaria sobreviver dentro do organismo, integrar-se corretamente e funcionar com segurança. Nada disso havia sido demonstrado pelo experimento de 2018.
O estudo, porém, havia resolvido uma barreira fundamental: demonstrar que células humanas poderiam ser utilizadas em uma impressora 3D para formar uma estrutura biologicamente relevante sem serem destruídas durante o processo.
A bioimpressão avança nos anos seguintes
A partir dessa demonstração, outros grupos continuaram trabalhando para superar as limitações da tecnologia. A bioimpressão corneana passou a incorporar novas biotintas, materiais mais sofisticados, técnicas multimateriais e métodos destinados a reproduzir de maneira mais fiel a organização da córnea natural.
Uma revisão publicada em 2026 aponta a personalização geométrica, os biomateriais avançados e a utilização de células vivas entre os principais caminhos de desenvolvimento da tecnologia.
O avanço mais significativo, entretanto, veio quando a bioimpressão começou a se aproximar de aplicações envolvendo pacientes.
Tecnologia chega a procedimento real
Em outubro de 2025, um novo capítulo dessa trajetória foi aberto em Israel. A empresa Precise Bio realizou um procedimento utilizando o PB-001, um implante corneano bioimpresso em 3D produzido com células endoteliais humanas cultivadas.
O procedimento fazia parte de um ensaio clínico de fase 1, planejado inicialmente para avaliar a segurança e a tolerabilidade do implante em um grupo de 10 a 15 pacientes.
O implante utilizado nesse ensaio não é a mesma estrutura criada pela equipe de Newcastle em 2018. Também não significa que atualmente seja possível imprimir uma córnea completa sob demanda ou fabricar olhos inteiros em uma impressora 3D.
Em 2018, a questão central era saber se células humanas poderiam passar por uma impressora, formar uma estrutura semelhante ao estroma de uma córnea e permanecer vivas. Anos depois, uma tecnologia diferente, baseada no mesmo conceito geral de bioimpressão, chegou a um procedimento envolvendo um paciente real.
A primeira impressão levou menos de dez minutos. Transformar aquela demonstração de laboratório em uma tecnologia médica segura, entretanto, exigiu anos de pesquisa.
O percurso mostra a distância entre uma prova de conceito e uma aplicação clínica. O que inicialmente parecia uma experiência futurista com uma impressora e células humanas ajudou a abrir uma linha de pesquisa que começa a ultrapassar os limites do laboratório.
A promessa da bioimpressão não está apenas em fabricar estruturas que se pareçam com tecidos humanos. O objetivo é desenvolver métodos capazes de construir tecidos vivos, personalizados e potencialmente aptos a substituir partes danificadas do corpo.
No caso da córnea, essa evolução pode representar um novo caminho para enfrentar a falta de tecido doador para transplantes.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific)
