Aumentar lucro – A Uber anunciou nesta quarta-feira (2) que irá cortar cerca de 3,3 mil postos de trabalho, o equivalente a aproximadamente 10% de sua força de trabalho. A medida prevê a eliminação de níveis hierárquicos de gestão, a unificação de equipes e, principalmente, a redução de custos operacionais – para maximizar os lucros da companhia que em 2025, atingiram 50 bilhões de reais.
A direção da empresa decidiu aumentar a pressão por resultados financeiros e maior rentabilidade, mas fica o questionamento sobre quem arcará com os custos dessa estratégia. Na prática, a decisão transfere para milhares de trabalhadores o peso de uma reorganização voltada à maximização dos resultados da empresa.
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A redução expressiva do quadro de funcionários evidencia uma tendência cada vez mais presente no setor de tecnologia: a busca por estruturas de trabalho mais baratas e enxutas, mesmo quando isso significa eliminar postos de trabalho, ampliar responsabilidades sobre equipes menores e reduzir a segurança de quem depende desses empregos.
Na prática, a Uber procura diminuir despesas e aumentar sua eficiência operacional, colocando o aumento das margens de lucro e a resposta ao mercado financeiro no centro de sua estratégia.
São as maiores demissões promovidas pela Uber desde maio de 2020, quando a empresa eliminou cerca de 6,7 mil empregos, quase um quarto de sua força de trabalho naquele momento. Na ocasião, os cortes ocorreram em meio às restrições impostas pela pandemia de Covid-19, que provocaram uma queda brusca na demanda pelos serviços de transporte por aplicativo.
Trabalhadores pagam a conta
O contexto atual, entretanto, é diferente. Desta vez, a redução do quadro ocorre como parte de uma escolha empresarial destinada a enxugar a estrutura, reduzir despesas e maximizar os seus lucros. Sob a perspectiva dos trabalhadores, a estratégia representa mais um episódio de precarização das relações de trabalho no setor de tecnologia, no qual a busca permanente pela redução de custos frequentemente se sobrepõe à estabilidade, à valorização profissional e à preservação dos empregos.
O CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, afirmou que os cortes têm como objetivo reduzir a complexidade da organização, que, segundo ele, vinha tornando a tomada de decisões mais lenta. A companhia também pretende criar funções mais focadas em coordenação. A justificativa empresarial, contudo, não elimina os impactos sociais da medida.
A opção por reduzir milhares de postos de trabalho para tornar a companhia “mais eficiente” demonstra uma política que privilegia indicadores de produtividade e rentabilidade, enquanto os trabalhadores enfrentam a insegurança provocada pelas demissões e pela reorganização de suas atividades. Para aqueles que permanecerem na empresa, a redução das equipes também poderá significar maior concentração de tarefas e responsabilidades.
A reestruturação também atingirá diretamente as condições de trabalho dos funcionários que permanecerem na companhia. A Uber pretende concentrar suas equipes globais em Nova York e São Francisco, exigindo que a maioria dos trabalhadores atualmente em regime remoto se mude para essas cidades.
Além disso, as funções totalmente remotas deverão ficar restritas a aproximadamente 1% do quadro de funcionários, enquanto será mantida a exigência de presença no escritório durante três dias da semana.
Ofensiva ao home office
A determinação representa outro aspecto preocupante do processo. Além das demissões em massa, funcionários que construíram sua rotina profissional e pessoal com base no trabalho remoto poderão ser obrigados a mudar de cidade ou deixar a empresa. Trata-se de uma reorganização que prioriza as necessidades corporativas sem necessariamente considerar, na mesma proporção, os impactos econômicos, familiares e sociais impostos aos trabalhadores.
A combinação entre cortes de pessoal, concentração das equipes, restrição ao trabalho remoto e busca por estruturas menores reforça um modelo no qual a redução do custo do trabalho passa a ocupar papel central nas decisões empresariais.
Ao tratar postos de trabalho predominantemente como despesas a serem reduzidas, a companhia corre o risco de aprofundar um processo de precarização no qual produtividade e lucro máximo se tornam objetivos prioritários, enquanto estabilidade, condições de trabalho e valorização profissional ficam em segundo plano.
A reação do mercado financeiro ao anúncio ajuda a ilustrar essa contradição. Enquanto aproximadamente 3,3 mil trabalhadores enfrentam a perda de seus empregos e milhares de outros serão submetidos a mudanças significativas em suas condições de trabalho, as ações da Uber subiram cerca de 2% nas negociações do pré-mercado após a divulgação das demissões.
O movimento evidencia uma lógica recorrente no mercado: medidas que representam insegurança e perda de renda para trabalhadores podem ser recebidas positivamente pelos investidores quando sinalizam redução de despesas e possibilidade de aumento da rentabilidade.
Nesse cenário, o desafio é impedir que a busca por eficiência e lucro seja feita às custas da proteção, da estabilidade e da dignidade de quem efetivamente sustenta as operações das empresas.
Sindpd irá notificar empresa
Diante do fato de a Uber ser uma empresa de tecnologia, como a própria empresa reconhece em manifestações públicas, o Sindpd irá notificar a empresa para que a companhia esclareça o impacto das medidas anunciadas em relação ao seu quadro de funcionários em São Paulo.
A atividade econômica principal da Uber consiste em prover serviços de tecnologia através do desenvolvimento e licenciamento de programas de computador, que permitem aproximar motoristas parceiros, que exercem atividade independente de transporte individual de passageiros, dos usuários que buscam esse mesmo serviço através do aplicativo digital da Uber.
Atualmente, São Paulo reúne cerca de 570 mil motoristas de aplicativo, incluindo a Uber e outras plataforma. A Uber não divulga o número exato de motoristas cadastrados nem quantos funcionários possui no estado, mas o Sindpd acompanha atentamente as atividades da empresa, a fim de proteger os direitos e interesses dos profissionais de TI que representa.
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